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O homem digital

Prosas do Recife

2006-11-12
Por Urariano Mota
Urariano Mota
Urariano Mota
Se cumpríssemos com rigor o que esse homem diz do mundo, em lugar de digital, melhor nós o chamaríamos de homem virtual. Parece-nos, se acreditássemos em tudo o que ele fala, vale dizer, se o víssemos com os olhos nos links que ele aponta, parece-nos que ele se nutre e vive com o que a web gerou. E se ele concede alguma coisa ao mundo real, ao tempo, por exemplo, àquele fluir fora dos hards e dos softwares, que os humanos antigos e antiquíssimos chamavam de História, esse homem é produto do que a web gerou, tem gerado e, talvez, quem sabe, ainda venha a gerar. O seu tempo é um algoritmo, um programa, um game engenhoso que aprisiona o universo todo em uma tela, em um monitor de plasma líquido. A sua alma é um download, não importa do quê, pois o download em si, para ele, é uma essência.

O refúgio da crónica

Prosas do Recife

2006-11-05
Por Urariano Mota
Urariano Mota
Urariano Mota
Ei, leitor, você aí. Sim, você mesmo, acorde, levante-se e abra bem os olhos, porque o dia não deixou de nascer. Despertem, mestres da universidade, estudiosos, críticos, periodistas, senhoras e senhores. A crónica brasileira não acabou no grande Rubem Braga. Isto, sabiam? A crónica, como todas as formas de vida, resiste, e mais que resiste, ela vem servida em prato sujo, em prato limpo, em prato quebrado, em prato nunca visto, em todos os pratos das mais diversas cores imagináveis e inimagináveis. Pero não só. A crónica brasileira está viva e com um acento e gosto poético a quem o próprio Rubem Braga pediria a bênção. Pensam que exageramos? Se assim pensam, mas ao mesmo tempo nos concedem o generoso benefício da dúvida, leiam por favor estas linhas:

A filósofa do Fantástico

Prosas do Recife

2006-10-24
Por Por Urariano Mota
A intelectual Viviane Mosé possui uma competência que vai da poesia à psicanálise, com o acréscimo de um doutorado, em filosofia. As informações pesquisadas dizem mais: que ela é autora de livros, actriz, carismática, e que possui muitos e influentes admiradores dos seus cursos particulares de filosofia. Para a filósofa, o sucesso se deve à razão de que “as pessoas gostam porque é uma filosofia que actua na vida, não no pensamento...”... Grande comunicadora, enfim. Por conta desses universais talentos, ela estaria mais que apta, quase com um fado escrito, para grandes voos. E foi por assim estar que naturalmente pousou no programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão. Mais precisamente, no quadro Ser ou não Ser?

Como não se deve escrever

Prosas do Recife

2006-10-14
Por Por Urariano Mota
No Brasil dos últimos anos tem surgido um súbito interesse pelo acto de escrever. Jovens, adultos e maduros têm-se debruçado de repente sobre o fascínio e bruxaria que é escrever sem ler, algo tão extraordinário quanto o falar sem jamais ter ouvido. Muito além do fenómeno Harry Potter, cuja maior mágica seria despertar jovens para a leitura de obras menos feiticeiras, a causa desse encantamento diz mais respeito ao espírito da matéria que à matéria do espírito. Em bom português, objectivo, material: diz respeito a dinheiro, a sobrevivência mesmo.

From Pernambuco to Stardust

Prosas do Recife

2006-09-22
Por Por Urariano Mota
 
Um ofício burocrático dirigido a qualquer corpo de qualquer galáxia, a qualquer, pois os burocratas sempre acreditam que a sua realidade é universal, em resumo, um ofício burocrático assim começaria:  
 
Via Láctea, Terra, Brasil, Pernambuco, 17 de setembro de 2006 
 
De: Telespectador curioso
Para: A quem interessar possa
Assunto: “Poeira das estrelas”, no Fantástico, Rede Globo de Televisão

Máquinas de pensar...

Prosas do Recife

2006-09-06
Por Por Urariano Mota
Sob o título de Ciência e Moralidade, o físico Marcelo Gleiser publicou na Folha de São Paulo um texto onde afirma que "no início do século 21, a clonagem e a possibilidade de construirmos máquinas inteligentes prometem até mesmo uma redefinição do que significa ser humano. Na medida em que será possível desenhar geneticamente um indivíduo ou modificar a sua capacidade mental por meio de implantes electrónicos, onde ficará a linha divisória entre homem e máquina, entre o vivo e o robotizado?...", e mais adiante, ao fim, "no futuro não muito distante, teremos de lidar com o que significa ter uma máquina que pensa...". Importa-nos por ora o que transcende, no citado artigo, o mundo das ciências que se chamavam de exactas.

A visita de Einstein ao Brasil

Prosas do Recife

2006-08-27
Por Por Urariano Mota

Para usar de uma linguagem mais própria, devemos dizer: como a luz de uma estrela que vem do passado, assim nos atinge a visita de Einstein ao Rio de Janeiro. E com mais propriedade, acrescentar: se os 80 anos-luz que nos separam da estrela Algol fazem dela um lugar muito estranho e diferente da nossa Terra, o mesmo não podemos dizer dos 80 anos que nos separam da boa sociedade do nosso Brasil, quando Einstein nos visitou. Os seus tipos, as suas personagens continuam vivos, com uma sobrevivência além da lógica, arqueológica, deveríamos dizer.

Relatam os cronistas que corria o ano de 1925. No princípio, Einstein não viria ao Brasil. Dizem que ele nem mesmo sabia que lugar seria este. “É um país tropical”, disseram-lhe. E como o sábio não relacionasse tropical a qualquer coisa conhecida, informaram-no de que era um lugar de selvas, de bananeiras, de clima quente, de macacos e papagaios. Então Einstein se moveu, e, aproveitando sua viagem à Argentina, alcançou o Brasil, porque seria, disseram-lhe, como dobrar uma esquina. “De Buenos Aires ao Rio de Janeiro é como ir de Berlim a Roma”. Entendo, respondeu-lhes Einstein, e mesmo sem entender fez essas duas viagens.

O chimpanzé, nosso irmão

Prosas do Recife

2006-08-19
Por Por Urariano Mota *

Não faz muito, toda a imprensa noticiou a espantosa descoberta: 99,4% dos genes do chimpanzé são semelhantes aos do homem. Da imprensa mais grave, que deseja nessa gravidade passar um ar sério, à imprensa mais popularesca, que se vê na alta reputação de imprensa popular, toda ela, grave ou vulgar, divulgou a nova sem restrição, mas sempre conforme o próprio estilo. Na de maior massa exibiram-se fotos de chimpanzé fêmea com lacinho vermelho na cabeça, na mais sisuda evitaram-se as fotos, mas os títulos foram bem sugestivos, como os do género, “Chimpanzés e Homens, tudo em comum”. De comum mesmo, na imprensa de todo género, só o sensacionalismo, a leveza mistificadora, acompanhados do inseparável engodo.

*  A partir de hoje, Urariano Mota, do Recife, começa a colaborar com o Ciência Hoje. É dele este auto-retrato: « Urariano Mota é natural do Recife. Publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e demais publicações alternativas, na época da ditadura. Muitas 'menções honrosas' depois, publicou o romance Os Corações Futuristas, cuja paisagem humana e física é a ditadura Médici, no Recife. Tem inédita uma novela policial, O Caso Dom Vital, que possui tema e enredo censurados por editoras. Nela, critica cruelmente o ensino em colégios brasileiros.

Tem contos, crónicas e artigos publicados em lugares que vão da Europa ao Brasil. No entanto, é quase absolutamente desconhecido no Recife. Em dúvida, consulte-se o Google, que nada informa sobre outro estranho fenômeno: Urariano Mota é um escritor novo, na idade de 55 anos.

ND: os subtítulos são da responsabilidade de CH.

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