Departamento de Oceanografia e Pescas: o «orgulho» da Europa que trouxe à tona as profundezas do mar
Ricardo Serrão Santos em entrevista ao "Ciência Hoje"
Três décadas volvidas, é um centro de excelência em investigação marinha, reconhecido a nível nacional e internacional, graças ao trabalho e afinco de investigadores que, com um brilho nos olhos, têm feito a diferença com investigação de ponta, tornando o DOP num dos "orgulhos da Europa", segundo a Direcção Geral de Investigação da União Europeia.
Açores: 'hot spot' dos corais de água fria no nordeste Atlântico
DOP descobriu elemento com 2300 anos ao retomar estudo dos recifes
Começou-se a perceber que os pescadores traziam ocasinalmente corais nas suas linhas de pesca, mas estava-se longe de imaginar a imensidão destas comunidades bentónicas no arquipélago. "A região, em termos de biodiversidade de corais, é um hot spot no contexto do Atlântico nordeste, visto que estas comunidades fixam-se em fundos rochosos. Como estamos numa zona de produção de fundo, temos o ambiente perfeito para estes corais", explicou ao "Ciência Hoje" Filipe Porteiro.
Desbravar os fundos submarinos dos Açores
Mapeamento e projecto Condor estão a «tirar a fotografia» das profundezas do mar
Não se trata apenas de "matar a curiosidade", pois a informação adquirida com o mapeamento dos fundos é utilizada para melhor planear todas as intervenções que são feitas depois.
No Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç), uma das utilizações primárias destes dados é "salvaguardar os equipamentos de investigação que não podem ser instalados em determinados contextos topográficos", explicou ao "Ciência Hoje" o investigador Fernando Tempera.
"Reservas marinhas não são sempre a melhor solução"
DOP trabalha para optimizar desenho destas áreas de protecção
De acordo com Pedro Afonso, biólogo do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç), quando se começou a falar de reservas marinhas, nos anos 70, tratava-se mais de uma questão social do que científica. "Eram vistas como uma panaceia para os problemas de sobrexploração e poluição, mas a certa altura começou a ser evidente que não havia provas científicas indicadoras de que as reservas eram sempre a solução", referiu ao "Ciência Hoje".
Nesse sentido, parte do trabalho desenvolvido pelo investigador tem permitido demonstrar, "através de dados concretos, que as espécies têm requerimentos espaciais muito diferentes e isso depois vai traduzir-se na eficácia das diferentes protecções".
A "polifonia" que os cetáceos trazem aos Açores
Estudo das vocalizações dá pistas para estratégias de conservação
Na verdade, a análise destes sons, por vezes "muito estranhos", faz parte das ferramentas que as duas investigadoras do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç) tem utilizado para perceber as movimentações das baleias e golfinhos dos Açores, a presença destes animais no arquipélago e aquilo que os atrai para lá.
"Queremos perceber a importância dos Açores para o ciclo de vida de uma série de espécies que são protegidas e que estão ameaçadas e identificar áreas prioritárias para a conservação destas populações, para que tenhamos garantias de que no futuro vão ser preservadas", explicou ao Ciência Hoje Mónica Silva, que se rendeu ao Faial há mais de uma década.
A «incrível» adaptação do mexilhão das fontes hidrotermais
Biotecnologia espreita as potencialidades do sistema imunitário deste bivalve
É um "valente" que, no seu meio natural, suporta grandes pressões. Mesmo assim, vive e reproduz-se, constituindo comunidades muito extensas em volta das chaminés das fontes hidrotermais, libertadoras dos elementos químicos (como o metano ou o sulforeto) essenciais para a obtenção da sua energia.
Além disso, têm a particularidade de depender de bactérias simbiontes, que se alojam no seu organismo e, através de um processo de simbiose, utilizam a matéria química para a obtenção da energia usada na criação de nutrientes que consome.
Aquacultura: abundância de cracas nos Açores pode voltar
Projecto pioneiro a nível mundial marca início da actividade na região
Para resolver este duplo problema, o Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç), em parceria com uma empresa de aquacultura, lançou um projecto pioneiro que prima pela originalidade no organismo e no sistema. Além de poder devolver a abundância das cracas à região, marca o início desta modalidade de criação animal no arquipélago, sendo que é ainda a primeira unidade de cultura deste crustáceo no mundo. Embora haja uma no Chile, cultiva outra espécie de cracas diferente da dos Açores.
Gaivotas predadoras de outras aves marinhas nos Açores
Garajau-rosado é prioritário em termos de conservação e cagarra pode comunicar pelo odor
Grande parte destas aves tem sido alvo de campanhas de conservação, algumas porque enfrentam o risco constante dos predadores, que vão desde cães e gatos, a ratazanas e até mesmo gaivotas, a única espécie de ave marinha que permanece no arquipélago todo o ano. As demais são migradoras.
O recenseamento das gaivotas pode funcionar, ainda que indirectamente, como uma forma de prevenir que esta ave se torne num predador furtivo. Segundo Verónica Neves, investigadora do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç), "este trabalho não é tanto pela importância da gaivota em termos de conservação, pelas ameaças que enfrenta, ou pelo seu número estar a diminuir, antes pelo contrário".
Fontes hidrotermais: «oásis» que podem explicar origem da vida
Organismos destes ecossistemas abrem novas portas para a biotecnologia
Alguns anos mais tarde, soube-se que o arquipélago dos Açores é um privilegiado neste campo e que a sua riqueza marinha ia muito para além dos abundantes bancos de peixe. Em 1993, a 1700 metros de profundidade, encontrou-se a Lucky Strike, a maior área hidrotermal activa que se conhece, com 21 chaminés activas e fluídos que atingem os 330 graus Celsius.
Com a passagem do tempo e o trabalho de investigação do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç), outras fontes hidrotermais de grande profundidade foram encontradas, como Menez Gwen, Rainbow, Saldanha, Ewan e, mais recentemente, Bubbylon.
Todas as notícias desta secção:
Açores: 'hot spot' dos corais de água fria no nordeste Atlântico (2011-03-31)Desbravar os fundos submarinos dos Açores (2011-03-30)
"Reservas marinhas não são sempre a melhor solução" (2011-03-30)
A "polifonia" que os cetáceos trazem aos Açores (2011-03-25)
A «incrível» adaptação do mexilhão das fontes hidrotermais (2011-03-23)
Aquacultura: abundância de cracas nos Açores pode voltar (2011-03-22)
Gaivotas predadoras de outras aves marinhas nos Açores (2011-03-21)
Fontes hidrotermais: «oásis» que podem explicar origem da vida (2011-03-16)
Departamento de Oceanografia e Pescas: o «orgulho» da Europa que trouxe à tona as profundezas do mar (2011-03-10)
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