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José Bonifácio: ambientalista de dois mundos

2007-10-17
Por Edson Struminski*

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Edson Struminski
Edson Struminski

Já tive a oportunidade de comentar aqui, na Ciência Hoje on-line a respeito do surgimento da crítica ambiental no Brasil durante o período pombalino. Tratava-se, na verdade, da repercussão do preparo, na Europa, de estudiosos brasileiros que seriam os administradores da colónia portuguesa e que se defrontariam, no Brasil, com métodos primitivos de uso da natureza que sua sofisticada formação rejeitaria. Destes brasileiros, um nome ganharia destaque não só na análise da exploração da colónia brasileira mas também na dos métodos de trabalho da própria metrópole portuguesa: José Bonifácio de Andrada e Silva.

* Eng. florestal e Dr. em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Subtítulos da responsabilidade de Ciência Hoje



Bonifácio de Andrade Silva: óleo de Décio Rodrigues Vilares
Bonifácio de Andrade Silva: óleo de Décio Rodrigues Vilares

Típico representante do período iluminista, com toda a versatilidade que isto representava na época, José Bonifácio construiu carreira no Estado português e também, por breve período, no Brasil, como administrador, cientista, político e estadista.

José Bonifácio acabaria se mostrando como um zeloso representante da nova mentalidade do governo português em diversas facetas, inclusive em questões ambientais. Em seu primeiro texto: “Memória sobre a pesca das baleias” (In: CALDEIRA, 2002), podemos ler uma síntese do típico modo de pensar científico da época, onde o conhecimento gera a crítica sobre o mau uso de um dado recurso e finalmente se sintetiza em possibilidades de ganhos a partir de um uso mais racional da natureza.

Ao mesmo tempo ele se mostrava particularmente preocupado com a conservação desta mesma natureza, preocupação que revelaria em outros textos. Se hoje este tipo de raciocínio é comum, certamente era inovador em 1790. A partir deste texto Bonifácio angariou prestígio e partiu para um longo período de estudos pela Europa, uma concessão rara na época.

Tema reccorrente

 A conservação das florestas era outro tema recorrente para José Bonifácio. Em uma “Memória sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal” (In: CALDEIRA, 2002), ele faz um alerta sobre a situação do ambiente natural na metrópole portuguesa e uma ampla e sofisticada leitura das mazelas provenientes da ausência de florestas, incluindo problemas na regulação do clima e na manutenção da fertilidade do solo, bem como lembra o efeito da produção vegetal na captura do carbono, tema actualmente em grande voga.

Neste texto, ao contrário do anterior sobre a pesca das baleias, que era basicamente um estímulo à livre iniciativa bem ao gosto do pensamento liberal da época, o que aparece é um chamamento à acção do Estado, que deveria agir como “vigilante sisudo” sobre os proprietários privados, cuja ignorância “foi quem na Europa conduziu a mão temerária do lavrador ignorante para despojar os montes do seu natural ornamento”.

Contra isto ele sugeria novos regulamentos e uma administração fundamentada em conhecimentos científicos e na experiência, algo que na prática só começaria a acontecer a partir do surgimento de governos republicanos com fundamentação positivista.

Os mesmos problemas

Anos depois no Brasil, José Bonifácio se defrontaria com os mesmos problemas, assinalando, porém, que a destruição do meio natural poderia gerar repercussões sociais muito amplas, inclusive a desagregação das comunidades, pela desorganização das actividades produtivas e da vida civil, que, na visão dele, requereriam estabilidade territorial e demográfica, conforme pode-se deduzir do parágrafo a seguir retirado da sua viagem mineralógica à então província de São Paulo, de 1820 (DEAN, 1997):

“Todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado e esta falta acabou em muitas partes com os engenhos. Se o governo não tomar enérgicas medidas contra aquela raiva de destruição, sem a qual não se sabe cultivar, depressa se acabarão todas as madeiras e lenhas, os engenhos serão abandonados, as fazendas se esterilizarão, a população emigrará para outros lugares, a civilização atrasar-se-á e o apuramento da justiça e a punição dos crimes experimentará cada vez maiores dificuldades no meio dos desertos”.

Assim, não por acaso, para um intelectual atento como José Bonifácio, a independência do Brasil em 1822 e a primeira Assembleia Constituinte de 1823 foram, de fato, as primeiras oportunidades, depois de mais de 300 anos de escravidão e de degradação dos recursos naturais do país, de se discutir uma pauta de modernização e "progresso" para a nova nação soberana. Segundo PÁDUA (2002, 147), José Bonifácio propunha um discurso então novo, de política geral de protecção dos recursos naturais do país, que considerava como trunfo do Brasil para seu progresso futuro.

Superação do modelo agrícola

Tal política passava pela superação do modelo agrícola colonial latifundiário, monocultural e destrutivo, ou pelo modo de vida tradicional dos índios, visto como parasitário, através da reforma agrária e de métodos agronómicos modernos e mais ambientalmente equilibrados.

Em seu texto, “Necessidade de uma academia de agricultura no país” (In: CALDEIRA, 2002) e em outros similares, fica claro que a visão de Bonifácio sobre este assunto é mais ampla do que pode se imaginar à primeira vista. Bonifácio defendia a criação de instituições científicas com um cunho inédito então no Brasil. Tratava-se, como ressalta PÁDUA (2002, 154), de uma cosmovisão sofisticada e integrativa, fundada no que havia de melhor na filosofia natural do seu tempo. As “academias”, de José Bonifácio deveriam envolver estudos e ensino de geografia, economia, política, história, biologia, zoologia, urbanismo, hidrologia, mineralogia, química, enfim, todo o leque de conhecimentos que ele estudou durante sua estadia na Europa.

Tamanha capacidade de inovação fez com que José Bonifácio acabasse por chocar-se com o pensamento conservador, tanto em Portugal como no Brasil. Ainda em seu período como responsável por várias instituições portuguesas, ele defrontou-se com inúmeros obstáculos causados pela burocracia e pela passividade de funcionários desinteressados em mudanças.

Ideias inovadoras

No Brasil, como um dos dirigentes políticos da mudança maior, a independência do país, teve de enfrentar oposições e resistências a seus projectos sociais e políticos como a supressão da escravidão, a incorporação dos indígenas e o próprio uso racional da natureza, que batiam de frente contra traficantes de escravos e proprietários rurais que eram a base das fortunas e do poder liberal conservador do início da monarquia brasileira.

Na verdade, as ideias de José Bonifácio seriam consideradas inovadoras em qualquer país da América naquele momento, mesmo o governo norte-americano levaria décadas até excluir a escravidão da sua vida social. Apenas poucos meses após propor estas ideias na Assembleia Constituinte de 1823 ele saiu do governo, para um exílio forçado em Paris por 6 anos. Voltaria em 1829, para assumir sua cadeira de senador, onde assistiria a derrocada de Pedro I, primeiro governante do país e assumiria o papel de tutor do seu filho, o jovem Pedro II, até ser novamente afastado em 1833.

José Bonifácio passou os seus últimos anos de vida na ilha de Paquetá, olhando para um pedaço da floresta virgem que tanto apreciava. Acabou por se tornar a referência moral do século XIX e das lutas sociais e ambientais que aconteceriam durante todo o império brasileiro.

BIBLIOGRAFIA

CALDEIRA, J. José Bonifácio de Andrada e Silva. Colecção Formadores do Brasil. São Paulo: Editora 34, 2002.

DEAN, W. A ferro e a fogo, a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 484 p.

PÁDUA.J. A. Um sopro de destruição, pensamento político e crítica ambiental no Brasil esclavagista (1786 - 1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2002. 318p.

VENÂNCIO, R.P. Entregues à própria sorte. Revista Nossa História, Rio de Janeiro, ano I, n. 9, p. 42 – 48, Junho 2004.



Comentários

Débora Maria, em 2009-09-21 às 14:44, disse:
caro amigo DuBois!!!
esta materia me levou a pesquisar a obra de Jose Bonifacio e outros pensadores ambientalistas, e inspirou uma iniciativa que chamei de "leva que o lixo é teu, não deixe o lixo na praia"
muito obrigada!


Libania Silva, em 2009-06-03 às 17:35, disse:
Estou cursando História, com ênfase em Patrimonio Cultural...Ainda estou no 1ºsemestre, mas ja tenho interesse no estudo da História Ambiental.Esta matéria representa um ponto de partida para uma futura pesquisa sobre a área. José Bonifácio irá me ajudar muito na minha trajetória...Obrigada e Parabéns...

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