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Endogamia nas universidades promove fuga de cérebros

2006-03-26
Por Por Miguel Araújo *

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A endogamia é o processo que conduz à contratação preferencial de docentes residentes na universidade contratante. Para assegurar a endogamia usam-se, frequentemente, duas de três estratégias. Primeiro, perfila-se o concurso de acordo com o currículo do candidato previamente escolhido. Segundo, abre-se o concurso divulgando-o o menos possível. Terceiro, preparam-se, cuidadosamente, armadilhas administrativas que permitam desqualificar os candidatos indesejáveis, ou seja, os que por mérito próprio teriam a possibilidade de destronar o candidato da casa numa avaliação curricular independente.




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e a endogamia - antes encarada como sendo normal e mesmo legítima - é, actualmente, considerada, pela maioria dos fazedores de opinião, de indesejável. Por este motivo, os concursos, cuidadosamente redigidos para favorecer um currículo predeterminado, são, hoje, menos frequentes, dando-se preferencia às mais discretas armadilhas administrativas.

Recentemente tive ocasião de testemunhar um exemplo requintado de promoção de endogamia por parte da Universidade de Lisboa. Os concursos desta universidade, divulgados na página de "ofertas de emprego" da Fundação para a Ciência e Tecnologia, e ao contrário da prática adoptada, por exemplo, pela Universidade de Coimbra, não oferecem indicações precisas sobre o procedimento administrativo a seguir para as candidaturas. Estes anúncios dão margem de manobra para todo o tipo de artimanhas administrativas conducentes à exclusão dos candidatos indesejáveis. Por curiosidade resolvi testar a minha especulação e enviei o meu currículo acompanhado de uma carta em que alegava o desejo de ser considerado para o referido concurso.

Foi sem surpresa que recebi uma carta da Reitoria da Universidade de Lisboa informando-me que a minha candidatura teria sido desqualificada por não ter sido acompanhada da "minuta de candidatura". A dita "minuta", que não se encontrava referida no anúncio do concurso, nem se estava acessível em registo electrónico, não é mais que um papel onde se preenchem os espaços em branco, com o nome próprio, filiação e referência ao concurso. Aparte a filiação, que julgo ser um elemento desnecessário para tais concursos, a minha carta de candidatura possuía todos os elementos solicitados pela minuta. É difícil não concluir que a Universidade de Lisboa, ao nível da própria reitoria, encoraja a endogamia nos concursos públicos para contratação de docentes.

Este procedimento contrasta com os concursos nas melhores universidades do mundo. Nestas universidades não só não são requeridas minutas, como se pede aos candidatos que preparem uma carta (formato livre) onde se explicita a estratégia científica, pedagógica e de captação de fundos que o candidato propõe implementar se for contratado pela universidade. Ou seja, troca-se o procedimento burocrático (arauto defensor da mediocridade) por um procedimento inteligente (arauto defensor do mérito).

Infelizmente o exemplo que decorre da minha experiência com a Universidade de Lisboa (supostamente entre as melhores do País o que prova que "quem tem olho em terra de cegos...") é apenas um entre muitos. Não deixa de ser sintomático que o País que gasta milhões de euros na formação avançada de jovens, nas melhores universidades do mundo, lhes feche depois a porta recorrendo aos pequenos artifícios da burocracia.

Nos mais de doze anos que frequentei universidades e centros de investigação no estrangeiro conheci inúmeros Portugueses, financiados pela FCT, que, actualmente, possuem formações académicas e currículos científicos excelentes. Salvo raras excepções, a maioria não regressa a Portugal não porque não o deseje mas porque as portas do primeiro emprego estão cuidadosamente seladas por quem julga que o "direito" ao trabalho é prerrogativa de quem trocou as oportunidades de formação oferecidas pela FCT pela proximidade aos pequenos centros de poder nas universidades Portuguesas.

Não há plano tecnológico, estratégias de Lisboa, e protocolos com o MIT que resistam a uma burocracia cuidadosamente arquitectada para defender os interesses da mediocridade instalada. Assim, não vamos lá!

* Research Fellow, Museo Nacional de Ciencias Naturales de Madrid Associate Professor, University of Copenhagen Senior Research Associate, University of Oxford http://www.mncn.csic.es/maraujo.htm

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Comentários

Luís, em 2007-09-19 às 11:15, disse:
É realmente uma pequena que se dê tiros nos próprios pés desta maneira. Eu sou mais um exemplo de quem não encontra, por cá, incentivos suficientes nas primeiras propostas de emprego e as encontre noutros países. Estou na área de Electrotecnia e vejo nos países nórdicos boas propostas.

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