Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
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Carta de Grenoble: 10 de Setembro, o dia de todas as inquietações

2008-09-05
Por Susana Teixeira

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Susana Teixeira
Susana Teixeira
Há dias perguntaram-me se “aquela coisa que os físicos estão a fazer lá para a Suíça não vai dar cabo de nós todos”... Vieram-me à cabeça os Lusíadas, o Adamastor, as superstições e receios dos navegadores. Afinal o medo é intemporal e o que assustava as nossas gentes há séculos atrás não é muito diferente do que se lê por aí hoje em dia.  Embora nos seja possível, a maior parte do tempo, ignorar as áreas menos intuitivas da Ciência, como os meandros intrincados da Física das Partículas, há (e sempre houve) momentos na história da humanidade em que não as podemos ignorar porque nos cruzam o caminho e afectam directamente o nosso presente, o nosso dia-a-dia. Disso são exemplos, para mencionar só os que me vêm à cabeça primeiro, as armas nucleares, as radiografias ou as reacções de fissão (por onde pode bem passar a solução para a crise energética que paira sobre as nossas cabeças).


Não muito longe de onde vos escrevo, o engenho humano estendeu-se mais além e promete tocar de novo o nosso quotidiano: foi construída uma grande máquina do mundo, um acelerador de partículas que fica a cem metros de profundidade entre as fronteiras suíça e francesa. A bestiola, um anel de 27Km de perímetro onde magnetos supercondutores aceleram partículas até à velocidade da luz (~300 000km/s), foi baptizada de Large Hadron Collider (LHC).

Irá recriar condições que se julga terem ocorrido logo após a famosa explosão que deu início aos nossos tempos e o dia do Big Bang, isto é, a data de lançamento dos primeiros feixes de protões no LHC, é já no próximo dia 10 de Setembro. Conta-se com a presença de numerosos jornalistas assim como políticos (entre eles o Presidente Nicolas Sarkozy), chefes de Estado e, claro, muitos cientistas. O Institut Laue Langevin, onde trabalho, estará representado pelo nosso director alemão Richard Wagner - ou não fosse o I.L.L., também ele, uma referência para a comunidade física internacional. Um dia antes do fatídico 11 de Setembro, o próximo dia 10 desperta não menos preocupações...

Nunca tínhamos chegado tão perto do Big Bang

Custa a crer que no meio de tanto turbilhão político e socio-económico, com as oscilações do preço do petróleo e as eleições nos E.U.A. a monopolizarem as atenções, mais de 80 países se tenham empenhado num projecto comum que não visa produzir um novo combustível nem é uma arma. Trata-se antes dum forte investimento, não só de fundos e de mão-de-obra, mas também e, porventura, acima de tudo, de expectativas. Como diria um dos recentes comunicados à imprensa do CERN, o LHC é tão inovador que é o protótipo de si próprio. O problema, e aqui voltamos às inquietudes, é que os protótipos precisam de ser testados. E como nunca tínhamos chegado tão perto do Big Bang, não sabemos ao certo o que acontecerá (os Adamastores dizem que se vai criar um buraco negro que engolirá o nosso planeta...)

Com um pouco de sorte, confirmam-se as teorias actuais com a prova da existência duma partícula chamada bosão de Higgs, (em homenagem ao escocês Peter Higgs, nascido há 78 anos não muito longe da Universidade de Keele, onde ensino; Higgs sugeriu um mecanismo para explicar como as partículas adquirem massa), até hoje jamais observada num acelerador de partículas. Com outro tanto de azar, a Física Nuclear sofre uma revolução e parte numa direcção nova. De qualquer forma, aprenderemos, chegaremos a metas que ainda nem sabemos onde são!

O que leva os cientistas a tão arrojadas experiências são na verdade questões razoavelmente simples, do género das que as crianças na poderosa idade dos porquês nos colocam. Aceita-se facilmente que tudo à nossa volta se pode dividir até atingir dimensões muito pequenas. Mas e quando não conseguimos dividir mais a matéria, o que explica as interacções entre partículas? E a partir de quando surge a massa? Quando se chega ao infinitamente pequeno são ilimitadamente grandes as nossas dúvidas, volta a opressão dos porquês que não têm resposta mas nos vão empurrando e nos fazem crescer.

Os primeiros passos

Tanto quanto se julga saber hoje em dia, no Universo tudo é feito de 12 partículas, que obedecem a quatro forças fundamentais: forte, fraca, electromagnética e gravitacional. A teoria que explica como estas forças gerem as partículas, o chamado Modelo Standard, já provou ser válida para as três primeiras forças mas não para a gravitacional, que sendo a mais fraca tem contudo um alcance infinito no espaço, e é justamente a que o cidadão comum entende melhor. A observação experimental da existência do bosão de Higgs viria confirmar um mecanismo que propõe explicar como é que as partículas adquirem massa, assim como a relação da força gravitacional com as restantes forças fundamentais. É difícil antecipar os resultados mas é ponto assente que a cobiçada partícula também trará consigo um prémio Nobel. Mais imprevisível é o rumo que tomará a Física a partir daí, mas será certamente um momento marcante na infância da humanidade.

Por enquanto, no dia 10 de Setembro, o LHC dá apenas os primeiros passos. As experiências cruciais estão previstas para 2010, quando o LHC atingirá a energia máxima para que foi concebido. E é aqui que se podem criar microscópicos buracos negros, a probabilidade ainda que mínima existe. As observações dos astrónomos dizem-nos que as colisões de raios cósmicos acontecem natural e frequentemente, e no entanto os planetas atingidos ainda lá estão (inclusivé o nosso).

Não parece haver portanto razão para pensar que corremos algum risco. O que diriam os navegadores lusitanos que não sabiam onde acabava o planeta mas ainda assim se lançaram no desconhecido? Francamente, correr riscos é exactamente o que fizemos quando experimentámos a primeira bomba nuclear (os cientistas encarregues do projecto faziam apostas em relação à extensão dos danos, antes do teste no Novo México). E é o que fazemos todos os dias ao continuar a emitir dióxido de carbono para a atmosfera, ou até ao ír às praias da linha do Estoril. A perseverança cá nos vai embarcando em naus rumo ao desconhecido, frequentemente sem muita reflexão, favorecidos por ventos de descaso da opinião pública, mesmo quando os media nos trazem informação mais do que suficiente para despertar o nosso interesse.

Entre um e outro europeu de futebol, deveríamos estar todos por aí a falar disto nos cafés, a perguntar a nós próprios até onde devemos levar a tecnologia e que riscos devem correr-se. Devíamos andar todos a devorar os artigos que falam do LHC, das experiências que lá vão decorrer e da importância que podem ter. Não se trata de conceitos reservados aos génios da física e a história da descoberta até assume contornos de telenovela...

Deixo-vos portanto as cenas dos próximos capítulos, sussurradas qual mexerico quentinho: conta-se que este projecto de dez biliões de dólares pode ter sido antecipado por descobertas no segundo maior acelerador de partículas depois do LHC: o Tevatron, perto de Chicago. Nenhum cientista confirmou esta informação mas correm rumores de que se detectou a presença do bosão de Higgs no Tevatron, que encerrará em 2009. Os resultados nunca foram, todavia, publicados nem confirmados por nenhum dos cientistas envolvidos. A corrida continua, pois, rumo ao futuro.



Comentários

Paulo Barros, em 2008-09-10 às 17:11, disse:
Uma vez mais a Ciência está na ordem do dia e uma vez mais por uma questão pacifica , pelo menos até prova em contrário.
A questão que me ocorre é "onde" fica Deus e a religião se ficar provada a tese cientifica da criação do Universo.
Um bem hajam


Rúben Marques, em 2008-09-08 às 22:19, disse:
Estou ansioso pelo dia 10, almejo ter algo a ver com a física como profissão desde que me conheço, a primeira profissão que quis seguir foi astronauta, mas entretanto fiquei-me por físico. Espero que sejam abertos novos e inexplorados caminhos da física ou que sejam descobertas novas utilidades para ela, afinal ainda quero descobrir alguma coisa hehe.

Quanto ao Tevatron, se foi feita alguma descoberta e não foi publicada, espero que o pessoal do CERN não tenha medo em publicar algo que seja constrangedor, mas seria muito interessante se acontecesse algum fenómeno bizarro digno de filme de ficção científica, mas provavelmente o mais bizarro será a criação de um mini buraco negro que acabará por se dissipar em radiação de Hawking antes de poder provocar estragos.

Boa sorte!


Carlos Caravela, em 2008-09-08 às 10:51, disse:
1º - EXPECTATIVA ...!!!
2º - "reverência" a António Saias.
3º - citando: " O Caminho faz-se caminhando ...", inevitavelmente ...


Lacyr J S, em 2008-09-05 às 19:06, disse:
Eu particularmente sempre achei os humanos tem um comportamento que vai alem da simples curiosidade, parece mais uma missão que nos foi comferida e acredito que apesar de alguns problemas que são causadas pelos conhecimentos novos adquiridos os bens sempre foram maiores

thiago, em 2008-09-05 às 17:21, disse:
A velha história de olhar somente o próprio umbigo se repete. As pessoas pouco falam ou sabem sobre este fato que nos aproxima tanto da origem da materia.
É desafiador todo este projeto e investida e estou muito ansioso para o dia 10 e para acompanhar os dados gerados ao longo dos próximos anos.
Gostaria que as pessoas olhassem para este fato que esta para mudar muito do que sabemos atualmente.
Parabéns pela matéria e continuarei aqui para ver o que acontece.


antonio saias, em 2008-09-05 às 17:15, disse:
consta que no Tevatron...
diz-se que a namorada do Ronaldo....
parece que Mbarak Obama...

a "Dúvida Sistemática"- para além das forças Forte; Fraca; Electromagnética e Gravitacional devia ser tomada como 5ª.força que faz movimentar o Universo


André Botafogo, em 2008-09-05 às 16:02, disse:
A questão é que levou-se 14 bilhões de anos para as particulas primitivas, que estavam em altíssima temperaturas, se complexificarem em átomos e outras estruturas que conhecemos hoje.

Querer inverter a hístória da evolução cósmica, realmente, pode gerar efeitos desconhecidos que podem colocar a vida e o planeta Terra em um perigo de extinção, para provar, ou não, a hipótese de uma teoria física.

Por outro lado, se o experimento der certo, é possível, futuramente, gerar uma fonte de calor, limpa, que poderá solucionar a demanda energética do mundo industrial, sem precisar queimar combustível fóssil, que gera os gases que causam o efeito estufa.

É preciso ter bom senso, e realmente, avaliar os potenciais riscos, negativos, do experimento e suas conseqüências para a humanidade, pois se realmente ocorrer um buraco negro, permanente, ou algo parecido, não haverá ciência, cientistas e mais nada. Será o fim da inteligência, consciente, em nosso sistema solar.


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