Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
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Sistema nervoso central e sistema imunológico de mãos dadas

2008-10-27
Por Por ECS/ICVS *

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Fernanda Marques está a fazer pós–doutoramento no ICVS/ECS
Fernanda Marques está a fazer pós–doutoramento no ICVS/ECS

As células do sistema imunológico são capazes de migrar até ao sistema nervoso central e exercer a sua função. Os Plexus Coroideus são uma estrutura importante na recepção de uma informação inflamatória. A investigadora Fernanda Sousa Marques baseou o pós-doutoramento no envolvimento dos plexus Coroideus nas doenças neurológicas e sugere que daí se possam tirar novos alvos terapêuticos.

* N.D. - «Percursos» é uma nova secção de Ciência Hoje e resulta de uma colaboração da Escola de Ciências da Saúde/Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ECS/ICVS) da Universidade do Minho, entidade responsável pelos conteúdos desta recente área de CH.



O que a atraiu neste tema de investigação?
O sistema nervoso central (SNC) e o sistema imunológico comunicam entre si e auto regulam-se. É sabido que as células do sistema imune são capazes de migrar até estruturas do SNC e exercer lá a sua função. Também é conhecido o facto de o SNC libertar substâncias, os glucocorticoides, capazes de modelar a resposta imunológica.
Nos últimos tempos, o interesse sobre a interacção entre estes dos dois principais sistemas do organismo – o sistema nervoso central e o sistema imunológico – tem aumentado grandemente e neste contexto o sistema de barreiras que se encontra a separar o cérebro da periferia toma uma importância extrema.

Que barreiras são essas?
Existem duas barreiras: a barreira hemato-encefálica e a barreira sangue líquido cefalorraquidiano (vulgarmente designado por líquor). A primeira é a mais estudada no contexto da interacção entre o sistema imune e o cérebro estando localizada ao nível das células (células endoteliais) que recobrem os interior dos vasos sanguíneos que se encontram a irrigar o cérebro e a segunda, menos estudada, localiza-se ao nível das células epiteliais dos Plexus Coroideus que são pequenas estruturas que se encontram no interior de cavidades cerebrais designadas ventrículos.

Qual a razão para o estudo dessa estrutura?
Os Plexus Coroideus, segundo o nosso ponto de vista possuem características que os tornam um importante alvo de estudo pois para além de participarem no sistema de barreiras do cérebro e estarem idealmente posicionados para “sentir” as oscilações, alterações, da periferia (sangue) estão também envolvidos na produção da maior parte do líquido cefalorraquidiano que circula nas cavidades cerebrais (ventrículos) e entre as membranas que recobrem o cérebro, estando assim em contacto com grande parte do tecido cerebral (parênquima). É, portanto, uma estrutura que sente o que está exterior ao cérebro e pode influenciar o bem-estar de todo o parênquima cerebral pois esse parênquima é influenciado pelos conteúdos presentes no líquor.

Quais são as principais questões envolvidas no seu projecto?
As questões chave são: primeiro, terão os Plexus Coroideus a capacidade de responder a um estímulo inflamatório periférico? Segundo, será que os Plexus Coroideus estão a mediar uma resposta inflamatória para o parênquima cerebral ou pelo contrário estão a proteger o cérebro da inflamação periférica? E por fim, quais são as moléculas e as vias de sinalização que estão a mediar a resposta dos Plexus Coroideus à inflamação periférica?

Que conclusões é que tirou da sua investigação?
Mostrámos efectivamente que os Plexus Coroideus são uma estrutura importante na recepção de uma informação, inflamatória neste caso, periférica e que participam rápida e activamente na resposta imune do cérebro. De entre as proteínas que encontramos alteradas após a indução de uma resposta inflamatória pela injecção periférica de lipopolissacarídeo destacamos uma proteína designada lipocalina 2 que sequestra ferro ligado a sideróforos bacterianos –pequenos compostos com grande afinidade por ferro e importantes para o crescimento bacteriano. Desta forma os Plexus Coroideus podem, ser neuroprotectores devido à produção de lipocalina 2 como um componente da resposta imune que protegem o sistema nervoso central de infecções.

Quais são as implicações deste estudo para a prática clínica?
O ferro é um elemento essencial para a sobrevivência de todos os organismos e também as bactérias necessitam de ferro para se poderem dividir. Assim sendo quando ocorre uma infecção bacteriana essas bactérias vão competir com o hospedeiro para a obtenção desse elemento essencial. Nesta luta, algumas bactérias segregam moléculas designadas de sideroforos que têm maior afinidade para o ferro do que as proteínas do hospedeiro, nomeadamente a transferrina e a lactoferrina. O hospedeiro em resposta é capaz de segregar uma proteína, a lipocalina 2, que é capaz de ligar os sideróforos bacterianos carregados de ferro, impedindo desta forma que a bactéria consiga realizar a captação desse ferro. Dessa forma o hospedeiro pode “ganhar” na luta por ferro que estabelece com alguns microorganismos. A descoberta de que os Plexus Coroideus são capazes de expressar, produzir e segregar lipocalina 2 para o líquido cefalorraquidiano é extremamente importante já que pode representar uma forma através da qual o hospedeiro tenta prevenir a propagação de microorganismos que eventualmente tenham acesso ao líquor.

Que planos tem para investigação futura?
Estudar o envolvimento dos plexus coroideus em doenças do sistema nervoso central, com vista à identificação de novos alvos terapêuticos.

NOME DO INVESTIGADOR
Fernanda Sousa Marques

FORMAÇÃO ACADÉMICA
2008- Doutorada em Ciências da Saúde – Ciências biológicas e Biomédicas, na Escola de Ciências da Saúde (ECS) da Universidade do Minho

PERCURSO DE INVESTIGAÇÃO
2000-2002 – bolseira de investigação na unidade de imunologia, actualmente grupo Fish Immunology and vaccinology, do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC);
2001-2002 – investigadora bolseira no projecto onde se pretendia avaliar o efeito da injecção de diferentes vacinas no robalo;
2002-2003 – investigadora bolseira num novo projecto no domínio da neurociências, na unidade de Amyloid do IBMC;

POSIÇÃO ACTUAL
2008 – investigadora (Programa de pós-doutoramento) no ICVS/ECS da Universidade do Minho, onde avalia e estuda o envolvimento dos Plexus Coroideus em doenças neurológicas.

 
AFILIAÇÕES
Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS), Escola de Ciências da Saúde (ECS), Universidade do Minho, Braga, Portugal



Comentários

MARA GONÇALVES, em 2009-10-16 às 17:04, disse:
Prof.ª
Li com atenção e especial interesse esta publicação e porque tenho esperança que nos possa ajudar, vou passar a relatar o caso do meu marido, Henrique, que tem 42 anos de idade.

A - PRIMEIROS SINTOMAS E DIAGNÓSTICOS:
1. Abril/2008 – Início dos 1.ºs sintomas.
Começou por ter pequenas quebras na perna direita, 2 a 3 vezes por dia (do género, falhar a perna momentaneamente);
2.Em Julho, começou a ter problemas em recuperar fisicamente quando ia correr. Se corria 3 ou 4 Km (o que para ele era, na altura, pouquíssimo) demorava a recuperar (só 2 dias após a corrida). Continuou a não dar importância e a atribuir tais sintomas ao facto de andar cansado pois já não tinha férias há mais de um ano;
3. Sensivelmente em Agosto desse ano, começou a ter as 1.ªs fasciculações (tremuras) sobretudo na perna e braço direitos. Actualmente, às vezes são tão violentas que, mesmo vestido com camisa e casaco do fato, se notam de forma perfeitamente visível);
4. A partir de Out./Nov. começou a perder forças nas pernas e, desde então, os sintomas têm vindo a agravar;
5. Foi a um médico neurologista e, após a realização de um electromiograma e de alguns exames de imagem (v.g. Ecografias e TAC), foi- - lhe diagnosticada a Esclerose Lateral Amiotrófica (E.L.A.);
6. Em 23 de Dez. /2008, foi a uma neurologista do Hospital de S. José e informou-nos de que não tinha assim tantas certezas quanto a esse diagnóstico (embora não o excluísse), justamente porque encontrou apenas comprometimento do 1.º neurónio motor, sendo que aquele diagnóstico não podia ser aferido apenas com base no electromiograma.
7. Porque queriamos ter mais opiniões quanto àquele diagnóstico devastador, fomos a dois neurologias: um em Bruxelas (Hospital da Universidade de Louvaine) e outro em Oxford, em Dezembro/08 e Janeiro/09, respectivamente. Informaram-nos que, sendo a E.L.A. uma doença de exclusão, só o tempo diria se o meu marido tinha ou não a doença; O médico em Oxford aconselhou-o a fazer uma punção lombar embora, admitisse que o resultado da mesma viesse normal.

B - DESENVOLVIMENTOS:
8. A partir de Jan./09, começou a perder força na mão direita, sendo que, actualmente também já tem perda de força muito significativa na mão esquerda (é canhoto e já faz a sua assinatura c/grandes dificuldades p.ex.).
Gestos tão simples como apertar uma camisa ou atacadores dos sapatos é já uma tarefa impossível de executar.
Eu visto-o e dispo-o todos os dias, auxilio-o a sair da banheira, a secar-se, a cortar-lhe os alimentos, etc, etc .
Por outro lado, as pernas estão muito trôpegas. Cai com alguma frequência embora, porque se muniu de cuidados redobrados, tem conseguido evitar cair com maior frequência.
9. Após variadíssimos exames (novo electromiograma, potenciais evocados, estimulações magnéticas, exames ao sangue), fez em Julho uma punção lombar.
Na (1.ª) punção efectuada, foi detectado um valor elevadíssimo de proteínas LCR (187), o que levou a que os neurologistas do H.S.J.
tenham concluído que ele tem eventualmente, um Sindroma Paraneoplásico, no contexto de uma neoplasia ainda desconhecida, porque oculta (“P.E.M.”– PARANEOPLASIC ENCEPHALO MYENTIS, na variante da doença do neurónio motor).
Nesse contexto, fez
novos TAC, RM e, por último, um P.E.T.
Estes valores voltaram a ser confirmados na nova punção lombar efectuada em 22 de Set. /09;
10. Na TAC (aos pulmões) – e P.E.T., foram detectados uns nódulos c/ 4 e 5 mm. mas, do ponto de vista oncológico, ainda não são expressivos (porque < 9 mm);
11.Terá agora de repetir exames específicos aos pulmões para se verificar se houve ou não evolução. Tem agendada consulta com pneumologista;
12. Querendo ouvir outra opinião pois não estávamos certos deste diagnóstico, consultámos neurologistas no Hospital de Santa Maria, Lisboa. Segundo estes, o meu marido tem, seguramente, a E.L.A.. A favor desta tese é que tem todos os sintomas da doença.
Contudo, há determinados achados em vários exames (v.g. Potenciais Evocados Motores dos Membros Superiores por Estimulação Magnética Transcraniana e Cervical, Potenciais Evocados Motores dos Membros Inferiores por Estimulação Magnética Transcraniana e Lombar e nas punções lombares – neste último exame, evidenciam-se proteínas LCR, com o valor de 187, conforme já referi - EMG que evidencia haver redução da amplitude do potencial sensitivo do nervo sural direito, o que parece que também não é normal numa E.L.A.) que não são (pelo menos, no entender dos neurologistas do H.S.J., encontrados nos doentes com E.L.A.
O Liquor da 2.ª punção efecuada no H.S.M. e sangue aí recolhido, foram para um laboaratório em Málaga.
13. No passado dia 12 de Out. /09, fez nova RM cerebral (Hospital dos Covões - Coimbra) para despistar eventual linfoma cerebral (questão levantada pela Prof. Dra. Letícia – Hematologista H.U.C.). A título meramente informativo, foi-lhe dito que há alterações da evolução do sinal R.M., sendo que tal questão terá de ser melhor avaliada pelo médico neurorradiologista. Aguardamos o relatório.

C - INDICADORES CONSIDERADOS EVENTUALMENTE RELEVANTES:

1. EXAMES AO SANGUE
ENZIMOLOGIA:
Creatinaqunose total
CK Total: 764 (11/11/08), 599 (25/02/09) e 816 (23/07/09 -

2. PATOLOGIA QUIMICA
17 Beta Estradiol – 52,40 (21/02/09)

3. PUNÇÕES LOMBARES
BIOQUÍMICA:
Proteínas LCR: 187

3. TAC (aos pulmões) e P.E.T. foram detectados nódulos c/ 4 e 5 mm.
(NB. Na TAC efectuada no dia 26/11/08, não são referidos quaisquer nódulos)

D - EXAMES FEITOS:
1. Exames variados de sangue;
2. 2 (duas) Electromiografias;
3. Potenciais evocados;
4. Estimulações magnéticas;
5. 2 (duas) Punções lombares;
6. Ecografia pélvica via supra púbica e transperineal;
7. Ecografia Escrotal (testicular);
8. TAC Pescoço e tiróide (partes moles) Faringe e/ou laringe;
9. TAC Abdómen superior;
10. TAC Pélvico;
11. 2 (dois) TAC Torax
12. P.E.T.
13. 2 (duas) RM cerebral

Prof.ª, poderá haver efectivamente alguma relação entre o LCR elevado e esta neuroopatia? Nós (sobretudo o meu marido, que é quem sofre verdadeiramente com a perda de capacidades) andamos nesta luta há um ano e não sabemos qual o diagnóstico. Estamos mesmo confundidos, baralhados, angustiados. A tese da “P.E.M.” fará algum sentido, do ponto de vista ciêntífico ou tratar-se-- à de uma mera hipótese académica?
No H.S.M dizem que o meu marido tem claramente E.L.A. mas também não encontram explicações para o índice elevado de proteínas LCR . Tal índice será relevante ou não? Será um caso em que, claramente, o SNC está a ser afectado pelo sistema imunológico?
Se me puder responder, ficar-lhe -ia eternamente grata.
É o vosso trabalho de investigação que nos faz acrediatar que, um dia, doentes como o meu marido vão ter a possibilidade de travar a doença e ter uma boa qualidade de vida.
Aceite os meus cumprimentos e desejo-lhe as maiores felicidades nas suas investigações.


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