Primeira cátedra financiada por privados quer «atrair jovens investigadores da diáspora»
Entrevista do jornal da Universidade de Évora ao titular Miguel Bastos Araújo
2009-02-04
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| Miguel Bastos Araújo (imagem UE On-line) |
Um dos nomes portugueses mais prestigiados na área da ecologia e ambiente, Miguel Bastos Araújo, foi eleito titular da primeira cátedra financiada por privados no nosso País. A Cátedra Rui Nabeiro poderá colocar a Universidade de Évora no roteiro da investigação e do trabalho ciêntifico naquelas áreas e será de certo modo um modelo para as cátedras desta natureza no nosso país. “É uma grande honra mas também uma grande responsabilidade”, diz, antes de “louvar o exemplo, pioneiro em Portugal, que o comendador Rui Nabeiro e a empresa Delta Cafés têm vindo a protagonizar”, seja com esta cátedra, seja no apoio a actividades educativas, de defesa do ambiente e de promoção do desenvolvimento sustentável no Alentejo e no País.
“As cátedras são unidades orgânicas que visam o aprofundamento científico em determinadas área do conhecimento”, como explica Miguel Bastos em entrevista ao jornal da Universidade de Évora, adaptada para o Ciência Hoje com autorização de entrevistador e entrevistado. “Distinguem-se de outras unidades orgânicas na medida em que são centradas na figura de um professor, ou investigador, de elevado mérito, que possui total liberdade de cátedra, ou seja, liberdade de estudar, investigar, difundir, publicar, sobre os temas que considerar serem mais oportunos”.
Quais serão as actividades da Cátedra Rui Nabeiro?
Miguel Bastos Araújo - As actividades assentarão em três pilares: promoção da investigação em biodiversidade e alterações globais, formação avançada em ecologia (ambiente e evolução e divulgação) junto dos estudantes mas também do grande público, de temas relacionados com o objecto da cátedra. A minha meta é que ela contribua para que a Universidade de Évora se torne uma referência nacional para a formação avançada nas áreas descritas e seja encarada, por estudantes e investigadores, como um local de referência para o intercâmbio de conhecimento e desenvolvimento da investigação científica.
Como pretende alcançar esses objectivos de excelência?
MBA - Ainda é cedo para avançar com detalhes mas uma das primeiras iniciativas será o estabelecimento de parcerias estratégicas com outras instituições nacionais e internacionais com vista à integração da Universidade de Évora em redes de investigação e formação avançada de excelência. Estas parcerias são importantes pois a massa crítica disponível na Universidade de Évora é insuficiente para fazer face aos desafios que se nos colocam hoje.
Que outras medidas preconiza?
MBA - Outra, crucial, é atrair jovens investigadores da diáspora científica portuguesa. Portugal deve ser um dos países europeus com maior fuga de cérebros entre os seus jovens investigadores e não há aposta mais importante que tentar atrair estes talentos de volta ao seu País - e isto é muito importante - antes que consolidem a sua vida profissional e emocional no estrangeiro.
De que forma se integrará a cátedra na vida académica da Universidade?
MBA - O meu desejo é contribuir para a criação e reforço de programas de investigação e formação avançada que tenham condições para sobreviver à cátedra. É importante que as actividades no âmbito da Cátedra se integrem na actividade corrente da Universidade. Não poderá impor a sua colaboração mas existirá toda a disponibilidade para colaborar com os que se revêem nos seus objectivos.
Será possível esse apoio da academia?
MBA - Prefiro não fazer prognósticos mas não creio que hajam muitas alternativas para ultrapassar a actual crise do sector universitário que não passem pela cooperação entre as partes interessadas. Um exemplo de como a falta de cooperação pode ter custos elevados aconteceu há uns anos quando os dois centros de ecologia da Universidade de Évora foram avaliados. Por esta ocasião foi feita uma recomendação por parte do painel de avaliação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para fusão destes centros. A racionalidade inerente a esta recomendação era inabalável. A massa crítica disponível era demasiado reduzida para que a universidade tivesse duas unidades de investigação financiadas pela FCT em áreas coincidentes e havia a expectativa que a fusão de dois centros "fair" desse, eventualmente, origem a um centro "good".
Quais foram as consequências?
MBA - Passaram os anos e o que aconteceu? Continuam a existir os mesmos dois centros que, entretanto, deixaram de ser avaliados e financiados pela FCT. Simultaneamente, foram criados e mantidos inúmeros laboratórios (mais de 10) na área das ciêcias da natureza. Nenhuma destas estruturas é avaliada pela FCT e algumas delas estão moribundas e só existem no papel, ou melhor, na página web da universidade. Outros laboratórios, constituem excelentes exemplos de dinamismo e mérito individual dos seus líderes. Os docentes que fazem investigação na Universidade de Évora fazem-na de forma isolada, em centros de investigação de outras universidades, ou em centros de investigação da Universidade de Évora que só marginalmente enquadram actividades de ecologia, ambiente e evolução (por exemplo, em centros de ciências agrárias).
Como analisa essa situação?
Uma das consequências desta situação é que hoje seria difícil aprovar um programa de doutoramento no âmbito da área departamental de ciências da natureza e do ambiente pois as regras apontam, claramente, para a necessidade de uma massa crítica a desenvolver investigação em centros de investigação bem classificados pela FCT, nas áreas temáticas dos doutoramentos propostos. A situação é grave já que sem estudantes de doutoramento dificilmente se faz investigação na fronteira do conhecimento e sem investigação não se conseguem outorgar doutoramentos dignos desse nome. Para romper este ciclo vicioso é necessária uma nova postura de cooperação assente no principio de que o êxito de uns também será o êxito de outros.
É o investigador português mais citado na área da ecologia e ambiente, na última década e, em Espanha, é o segundo mais citado. Como chegou aqui?
MBA – Com muito trabalho, de uma forma constante e muito esforço pessoal. É bom não alimentar ilusões, para obter cinco por cento de inspiração é necessário gastar 95 por cento de transpiração e tal só se obtém com um nível quase obsessivo de dedicação. Em segundo lugar, uma gestão criteriosa do tempo. O bem mais escasso de qualquer investigador é o tempo de qualidade, sem excessivas distracções e interrupções, e a má gestão deste bem escasso é garantia de fracasso e frustração. Em terceiro lugar, uma visão estratégica sobre quais as perguntas mais interessantes e importantes em cada momento. Tal não garante a qualidade da ciência produzida mas contribui para a visibilidade da mesma. Em quarto lugar, a integração em redes internacionais interdisciplinares.
Como assim?
MBA - Muito antes da globalização económica já existia uma globalização da ciência e hoje, mais do que nunca, é impensável liderar a fronteira do conhecimento trabalhando de forma isolada. É necessário viajar, interagir com colegas e, mais importante, estabelecer parcerias interdisciplinares com investigadores de elevado mérito pois as grandes novidades, as grandes descobertas, estão na intersecção entre as disciplinas clássicas. Mas não será possível a um investigador crescer se não tiver beneficiado de uma formação sólida em ciência. A curiosidade, o rigor, o método e a capacidade de transformar estes atributos numa investigação publicável e de interesse geral aprende-se e treina-se no dia a dia. Alguns poderão aprender a ser excelentes investigadores de forma autodidacta mas a grande maioria dos investigadores necessitou de treino e de um enquadramento estimulante para ousar cruzar as fronteiras do conhecimento.
Pretende investir na Cátedra em regime de exclusividade?
MBA - As Cátedras convidadas são geralmente ocupadas por líderes científicos, de nível internacional, com posições consolidadas noutras instituições. Estas Cátedras diferem das Cátedras permanentes que são ocupadas por investigadores que trasladam a totalidade das suas equipas de investigação para a instituição que oferece a Cátedra. Portanto, seria pouco razoável que um investigador com uma posição consolidada, numa instituição de excelência científica, como é o CSIC (Consejo Superior de Investigaciones Científicas), se desvinculasse da mesma para ocupar, em regime de exclusividade, uma posição cujo compromisso é de cinco anos.
Como irá desenvolver o seu trabalho?
MBA - Dadas as circunstâncias, o que pretendo é estabelecer sinergias positivas entre a minha equipa actual, as redes internacionais nas quais esta se insere e o programa da Cátedra. Em particular, tentarei explorar as vantagens comparativas que a Universidade de Évora oferece, designadamente no que respeita a capacidade de instalação de laboratórios, para investigar os mecanismos climáticos que afectam o sistema biológico. Este núcleo de investigação experimental radicado em Évora será integrado num programa mais vasto de investigação que inclui elementos da minha equipa dispersos por vários países. A componente de formação avançada, que só é possível nas universidades, promete ser outra valência complementar muito importante às minhas actividades actuais.
Comentários
Cármen, em 2009-10-06 às 14:16, disse:
Francisco, esta entrevista poderá ter interesse para ti.
AbrçJ.M. S. Simões Pereira, em 2009-02-05 às 13:51, disse:
Coincidência curiosa, no passado dia 30 de Janeiro, no decorrer de um jantar-debate promovido pela Fundação Inês de Castro em Coimbra, na Quinta das Lágrimas, sugeri ao conferencista, Professor Seabra Santos, Reitor da Universidade de Coimbra e Presidente do Conselho de Reitores, entre outra formas de contribuir para o financiamento das universidades, o recurso a doações de privados ou empresas para, por exemplo,a criação de tais cátedras.
Por isso felicito o Sr. Nabeiro e a Universidade de Évora por abrirem este precedente em Portugal. Nos EUA é prática frequente.