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João Relvas regressou a Portugal e recomenda

Neurocientista diz que «agora há mais ilhas, que começam a ter condições melhores e massa crítica»

2009-03-20

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João Relvas
João Relvas
O neurocientista João Relvas decidiu regressar a Portugal para "vestir a camisola" e prosseguir estudos que iniciou e desenvolveu durante 17 anos no Reino Unido e na Suíça sobre importantes mecanismos celulares do sistema nervoso. Num momento em que decorre a Semana do Cérebro, é um de vários neurocientistas que estão de volta depois de se terem especializado em alguns dos melhores centros internacionais de investigação.

Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade de Coimbra (1990), saiu do país dois anos depois para estudar e trabalhar durante quase seis anos na Universidade de Cambridge. Esteve a seguir na Suíça, no Centro de Neurociência de Zurique, durante mais seis anos, até assumir a chefia de um grupo de investigação no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), no Porto.

Num curto intervalo veio a Portugal para se doutorar em Genética Molecular pela Universidade de Lisboa (1997), mas regressou imediatamente a Inglaterra, onde obteve outro grau de doutoramento no Imperial College de Londres.

Ciência em Portugal está diferente

Com a vivência acumulada na sua longa permanência no estrangeiro, João Relvas, 42 anos, vê "de uma maneira diferente" a Ciência que se faz em Portugal. "Há coisas de que sentimos falta, mas há outras surpreendentemente positivas", afirmou. "Quando saí de Portugal, com 23 anos, só havia a (Fundação Calouste) Gulbenkian a fazer ciência, era uma ilha", recordou, justificando a sua saída porque "não existia então investigação científica no país".

"Agora há mais ilhas, que começam a ter condições melhores e massa crítica, mas estamos ainda numa fase embrionária que só vai dar frutos daqui a alguns anos", acrescentou. Lamenta, todavia, a falta de apoio aos investigadores séniores que querem regressar a Portugal.

Estudo

O grupo que dirige no IBMC, o da Biologia da Glia, estuda um conjunto heterogéneo de células do sistema nervoso com esse nome que têm uma função primária e de suporte e protecção dos neurónios. A importância desse estudo deve-se ao facto dos axónios das células nervosas estarem rodeadas por uma substância, chamada mielina, que permite não só a condução rápida dos impulsos nervosos como a sobrevivência das próprias células nervosas.

Quando falha a produção dessa substância ou a melanina é destruída podem ocorrer doenças como a esclerose múltipla, que, segundo João Relvas, é "a doença neurológica do sistema nervoso central com mais expressão nos adultos jovens e tem vindo a aumentar em Portugal". Esta é uma de um conjunto grande de doenças, chamadas desmielinizantes, com grande importância médica e que afectam tanto o sistema nervoso central como o periférico. Entre elas contam-se a Doença de Charcot e, até, o AVC, que tem elevado índice em Portugal e pode estar associado à destruição de mielina.

Além desta vertente médica, o laboratório de João Relvas no IBMC tem um grande núcleo de biologia fundamental que tem por objectivo definir como é que o meio extra-celular regula a diferenciação das células mielinizantes - os oligodendrócitos e as células de Schwann. É que, sublinhou, "a percepção dos mecanismos de regulação do processo de mielinização é crucial para ajudar a perceber as doenças".

Ligação à Suiça

João Relvas trouxe para Portugal o laboratório que abriu em Zurique, mas conserva uma ligação institucional e mantém na Suíça vários estudantes de doutoramento sob sua supervisão.

A nível internacional, mantém também prolongadas colaborações activas com colegas no Reino Unido, sobretudo na Universidade de Cambridge, mas também no Centro de Regeneração Médica, em Edimburgo.

Tem vários trabalhos publicados em revistas científicas internacionais de referência, como o Journal of Cell Biology, Journal of Neuroscience, Science ou Cell.


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