Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
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No cerne do filme «Anjos e Demónios»

CERN é um elemento essencial na história de Dan Brown que chega quinta-feira aos cinemas

2009-05-13
Por Filinto Melo

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O livro lê-se num ápice. O antecessor do «Código Da Vinci», e seu sucessor em sucesso, é uma história de detectives em que aparece pela primeira vez Robert Langdon, o professor de Simbologia de Harvard que se transforma em detective nas mãos de Dan Brown. E se no primeiro a tornar-se “best-seller” o autor colocou o personagem a decifrar os quadros do renascentista italiano, a correr capelas em Paris, Londres e Escócia à procura de vestígios de uma pretensa sociedade secreta, o Priorado do Sião, em «Anjos e demónios» Langdon é colocado pelo autor a explorar os signos dos Illuminati, outra sociedade secreta, a correr por capelas em Roma, pelo Vaticano e num empreendimento em Meyrin. Meyrin? Sim, uma pequena cidade na fronteira da Suiça e França, onde fica localizado o CERN. Meyrin, ou melhor dizendo o CERN, de um lado e o Vaticano do outro e o enredo de sucesso está criado. A guerra entre Igreja e Ciência. Para ocupar o papel que veio depois a ser de Da Vinci, neste primeiro livro Dan Brown escolheu nada menos que Galileu, alegadamente um Illuminati.

“A ideia é genial”, escreveu Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), escritor e guionista. Num artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, onde tem uma coluna de divulgação científica, Gleisner mostrou-se interessado pela forma como Brown cozinhou a história em torno dessa guerra “metafórica” entre religião e ciência – “o Vaticano ainda não bombardeou o CERN e o CERN também não tem planos de bombardear o Vaticano”. Mas, na trama, é aqui que aparecem os Illuminati.

Esta sociedade secreta de cientistas e livres-pensadores, alegadamente fundada por Galileu Galilei, pretende vingar-se da forma como a Igreja Católica trata os seus membros, desde a Idade Média. Com a morte do papa, e reunido o Conclave para a eleição do novo representante dos católicos de todo o mundo no Vaticano, sucedem duas situações que adensam o suspense do livro e do filme e pedem a investigação do professor de Simbologia Robert Langdon, nesta sua primeira aventura: quatro dos cardeais favoritos são raptados em Roma e um famoso cientista do CERN, um católico, é assassinado. O romance relata que os Illuminati lhe roubaram anti-matéria, uma poderosa fonte de energia e também uma poderosa arma de destruição maciça, capaz de imitar a potência da bomba de Hiroshima apenas com um grama...

Antoniono Zichichi
Antoniono Zichichi
Para não estragar o suspense aos que pretendem ver o filme, voltemos ao CERN. O “famoso cientista” que Brown ficciona no livro é Antonino Zichichi. É a ele que se atribui a descoberta da anti-matéria, em 1965, e é um conhecido católico e proclamado anti-darwinista (autor do livro “Por Que Acredito Naquele Que Fez o Mundo”, publicado no Brasil). Na semana passada, o também presidente da Federação Mundial de Cientistas conversou com o El País sobre o filme e foi peremptório nas respostas sobre a “cientificidade” do livro. Não é possível roubar anti-matéria porque “ao entrar em contacto com a matéria sofre o fenómeno de aniquilação” e ela não poderá servir de arma, diz, pois “só se pode produzir com instrumentos muito complexos como os que temos no CERN. Para «construir» um grama de anti-matéria (que com um grama de matéria poderia produzir a mesma quantidade de energia que destruiu Hiroshima) ainda faltam centenas de milhares de anos”. Ou seja, como escreve Gleiser, “a ciência de Dan Brown está completamente furada”.

«Quartel general» do CERN
«Quartel general» do CERN
Para começar, não é apenas o CERN que tem capacidade de produzir anti-matéria. Conforme se pode ler na página sobre o filme/livro que o Laboratório Europeu de Pesquisa Nuclear colocou online, o CERN não o único centro de investigação a fazê-lo. E como nota Ricardo Gonçalo, num texto publicado no Ciência Hoje, nem é o LHC. De facto, o que ocorre nesta “criação” de rotina de centros como o de Meyrin (perto de Genebra) é a expressão da fórmula E=mc2, a energia das partículas em colisão é transformada em matéria. Os cientistas dizem que não é possível transformar a anti-matéria em fonte energética, mas Dan Brown mantém mais ou menos a palavra do que escreveu no livro, e acompanhou no guião do filme. Numa entrevista de promoção, descreve-a com os dados já conhecidos e insiste que “é promissora, não gera poluição ou radiação, e uma ínfima porção gerava a energia necessária para a cidade de Nova Iorque durante 24 horas. Claro que leva os leitores (e eventuais espectadores do filme) a um dilema assustador: Vai esta poderosa energia salvar o mundo ou vai ser usada para criar a mais letal arma de sempre?”

“A realidade, claro está, é bastante mais prosaica e menos assustadora”, escreve Ricardo Gonçalo, numa reportagem sobre a visita dos actores Tom Hanks e Ayelet Zurer e do realizador Ron Howard a Meyrin, ao CERN.

Dan Brown
Dan Brown
E o próprio Dan Brown, numa conferência de imprensa paralela à antestreia do filme em Roma, disse que as suas histórias “são pura ficção, construídas em torno de factos verídicos” e quanto mais verídicos parecerem, melhor. Mesmo com a “ciência furada”, analisando os prós e os contras, Sergio Bertolucci, director de investigação do CERN, decidiu abrir-se ao filme, pois "o facto de Anjos e Demónios ser um best-seller e agora um filme de Hollywood é uma oportunidade de mostrar como a investigação sobre a antimatéria é excitante".

Até a Igreja Católica mudou ligeiramente a sua posição. Depois de ter contestado muito do teor de «O Código Da Vinci», e apesar de alegadamente ter tentado condicionar o trabalho das equipas de filmagens no Vaticano, o jornal oficial do Vaticano até fez elogios ao filme. Segundo relata a Agência Ecclesia, o L’Osservatore Romano na sua edição de quinta-feira escreve que o filme é “efémero", embora admita que "prende a atenção" e que o trabalho de realização de Ron Howard é "esplêndido". Elogia ainda o actor Tom Hanks, que volta a vestir a pele de Robert Langdon, desta vez para tentar ajudar o Vaticano a resgatar cardeais sequestrados que estão a ser assassinados de hora a hora. E desvia a sua crítica para outro lado: “Que esta visão simplista e parcial da Igreja tenha tanto sucesso”, diz o L'Osservatore Romano, “deve fazer pensar e reflectir”, pois a “cultura católica” demitiu-se de “falar da Igreja e da sua realidade mais profunda nos grandes media”, denegrida por “falsidades históricas”, alegadas “mentiras e repressões sanguinárias”.

Gleiser faz a ponte: “O avanço da ciência deixou um vácuo espiritual que ela não pode preencher. Perdas emocionais, questões éticas ou morais não serão decididas por teoremas ou experimentos. Por outro lado, negar o avanço científico é uma postura absurda. Existem anjos e demónios dos dois lados”.

«Anjos e Demónios» estreia esta quinta-feira.



Comentários

Messias Eugenio Viana, em 2009-05-15 às 16:33, disse:
= Tudo nesta vida é possível. O impossível, apenas, teima não acontecer. E... quando acontece, deixa de ser impossível. Porém o desafio jamais vai deixar de existir. Haverá sempre, uma grande impossibilidade, nos horizontes daqueles que passam a vida pesquisando, em buscas de respostas para os seus grandes questionamentos. Seja das profundezas, imensuraveis, dos segredos do corpo humano, dos segredos do universo, ou da fé que move montanhas. A busca implacavel, das respostas que aflige todo ser humano não terá fim.

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