Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
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Edgar Morin defende «reforma radical» nas universidades e escolas

É preciso ensinar «os enganos, ilusões e erros que partem do próprio conhecimento»

2009-05-22

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Edgar Morin
Edgar Morin
O filósofo e sociólogo Edgar Morin, que hoje participa em Viseu num colóquio sobre Educação promovido pelo Instituto Piaget, defende uma "reforma radical" do modelo de ensino nas universidades e escolas, salientando a necessidade de acabar com a 'hiperespecialização'. "Temos a necessidade de reformar radicalmente o actual modelo de ensino nas universidades e escolas secundárias. Porquê? Porque actualmente o conhecimento está desintegrado em fragmentos disjuntos no interior das disciplinas, que não estão interligadas entre si e entre as quais não existe diálogo", sublinha, em entrevista à Lusa.

O filósofo francês considera que o modelo actual leva a "negligenciar a formação integral e não prepara os alunos para mais tarde enfrentarem o imprevisto e a mudança".

Edgar Morin, de 88 anos, critica, por exemplo, que nas escolas e universidades "não exista um ensino sobre o próprio saber", ou seja, sobre "os enganos, ilusões e erros que partem do próprio conhecimento", defendendo a necessidade de criar "cursos de conhecimento sobre o próprio conhecimento".

Lamenta, igualmente, que a "condição humana esteja totalmente ausente" do ensino: "Perguntas como 'o que significa ser humano?' não são ensinadas", critica.

Por outro lado, acredita que a "excessiva especialização" no ensino e nas profissões produz "um conhecimento incapaz de gerar uma visão global da realidade", uma ‘inteligência cega’".

"Conhecer apenas fragmentos desagregados da realidade faz de nós cegos e impede-nos de enfrentar e compreender problemas fundamentais do nosso mundo enquanto humanos e cidadãos, e isto é uma ameaça para a nossa sobrevivência", defende.

"Está demonstrado que a capacidade de tratar bem os problemas gerais favorece a resolução de problemas específicos", garante Morin, lembrando que a maioria dos grandes cientistas do século XX, como Einstein ou Eisenberg, "além de especialistas, tinham uma grande cultura filosófica e literária".

"Um bom cientista é alguém que procura ideias de outros campos do conhecimento para fecundar a sua disciplina", afirma, sublinhando que "todos os grandes descobrimentos se fazem nas fronteiras das disciplinas".

Garante também que "apesar de em muitas universidades norte-americanas existir maior flexibilidade no que toca ao modelo ensino", nos Estados Unidos existe o "mesmo problema que na Europa".

Comentários

Edmundo dos Santos Figueiredo, em 2010-02-07 às 00:25, disse:
Esperar que a escola resolva todas as questões da sociedade é uma ilusão perigosa como aliás se vê desde sempre. O Universo não é um paradigma quadriculado como a ciencia deseja e estabelece. O Universo é movimento, é força. O homem é uma das «coisas» irredutivelmente integrada nele, é sua pertença e, de algum modo, reflete essa plasticidade da repetição/renovação nunca ser igual. Dos triliões de triliões de folhas arbóreas no mundo não há duas iguais, logo, os paradigmas falham.
Logo, o paradigma escola falha...
É neste particular que a ideia de Morin se distingue: a escola deve ensinar da possibilidade de conhecer o conhecimento, no grau em que este possivel está ao alcance do «passageiro» homem; então, e só então, algo mudará na sua mentalidade e na sociedade.


Isa~, em 2009-09-02 às 07:29, disse:
Estou plenamente de acordo com o filósofo Edgar Morin por quanto a escola na sua essência surge para dar resposta às necessidades da sociedade, no qual se fundamenta a primeira lei da Didáctica como ciência; e as universidades são os espaços por excelência para o cumprimento desse objectivo. Ora bem, a partir do momento que os profissionais formados não forem capazes de resolver de maneira criativa os problemas das sociedades em que se encontram imersos, então, as instituições não estão a cumprir com a encomenda pela qual foram criadas: a formação multilateral da personalidade. Desta feita, impõe-se a necessidade de se encontrar um novo modelo e paradigmas de ensino onde prime a integralidade e a criatividade na formação da personalidade para, definitivamente, fazer frente aos desafios cada vez mais crescentes que nos impõem as mudanças das novas sociedades.

Edmundo dos Santos Figueiredo, em 2009-05-31 às 22:37, disse:
Concordo com o filósofo Morin. Contudo, julgo que o problema maior que altera todo os objectivos é o facto do conhecimento não estar ao serviço da humanidade mas ao serviço do interesse de alguns que utilizam o saber para obterem, exclusivamente, mais lucro. Todo o sistema de ensino está direccionado para aprender aquilo que é necessário a uma sociedade de competição: ganhar sempre mais e mais a qualquer preço e de qualquer modo.
Entretanto, todas as tentativas de mudar o sistema fracassam em virtude de os que vão nascendo se formarem dentro do mesmo espirito. E como defendia Davia Hume, o homem é os hábitos que interiorizou na comunidade onde nasceu. Por isso, continuam, no geral, lutando para fazer o mesmo que os
pais e, se possível, ainda mais.
Como mudar isto?


Miguel A. Reis, em 2009-05-25 às 11:57, disse:
Esta notícia e comentário provenientes de alguém com um nível inquestionável de Edgar Morin, representam eventualmente uma "luz ao fundo do túnel" para todos aqueles que há muito clamam que é necessário "ensinar" e "aprender", em vez de "ensinar a fazer" e "aprender a fazer". Revisitar os métodos de ensino "clássicos" em Portugal, onde a grande maioria dos licenciados que esse sistema formou eram totalmente autónomos, bem como muitos senão a grande maioria dos detentores de cursos intermédios, é possivelmente um bom caminho, para colocar em prática as palavras de Edgar Morin, mesmo que muitos dos "novos visionários" do "ensinar a fazer" considerem o contrário. Do mesmo modo que há 30 anos atrás existia um "sistema de Bolonha" a funcionar em Portugal, sistema que foi erradamente destruido para agora ser mal recuperado, também a destruição do método "clássico" de ensino em Portugal em vez da sua melhoria, só promoveu a degradação do nível de formação global da sociedade Portuguesa. Ensinar e aprender os fundamentos de tudo (desde a língua até às ciências, incluindo as ferramentas matemáticas e filosóficas que permitem pensar e trabalhar eficazmente o pensamento) e deixar que a partir daí cada um use o conhecimento adquirido do melhor modo possível nos problemas concretos que terá de enfrentar, isso é efectivamente o que nos diz Edgar Morin. Pode ser que sendo ele a dizer as forças vivas nacionais entendam. Pena é que não tenham entendido há mais tempo quando muitos cá dentro o disseram. É que Portugal e o Portugueses, nem sempre estam atrasados, pois nem sempre não fazer o que os outros fazem é atraso, e pode mesmo ser avanço.

Helena Moura, em 2009-05-25 às 11:39, disse:
Mas esta perspectiva é completamente contra a reestruturação de Bolonha...estamos num processo completamente oposto ao que deveríamos...bem me parecia!

vitor oliveira jorge, em 2009-05-25 às 11:31, disse:
Estou totalmente de acordo. A estrutura do ensino tal como está, e por mais "modernizações" que se verifiquem, tanto na organização, como nos conteúdos, conduz ao fracasso. Mas a nossa sociedade não tem mostrado à evidência que o sistema geral globalizado em que vivemos é o do fracasso global para grande parte da humanidade? O ensino é apenas um sub-sistema de um modelo que tem os dias, os anos, ou os séculos contados, a história não parou nele, ou então pararemos todos nós, seres humanos, e o planeta inteiro, às mãos das forças que o controlam. Uma nova utopia é necessária.

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