Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Finalmente o Museu do Côa - O Museu do Côa vai ser inaugurado na próxima sexta feira, pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, concluindo um projecto há muito aguardado

Coliseu do Porto será ocupado pelo teatro de La Fura dels Baus

O medo, a violência e o poder recordando massacre do teatro Dubrovka

2009-05-28
Por Filinto Melo

Partilhar

Imagens de David Ruano/Fura dels Baus
“A partir deste momento, ninguém pode sair do teatro”
, foi assim que os 40 integrantes de um grupo checheno se identificaram aos espectadores do teatro Dubrovka, em Moscovo. Explicaram que só sairiam dali quando a Rússia saísse da Chechénia. Dessa ocupação e da tomada do teatro pelas forças de elite russas resultaram 171 mortos. “A minha reacção inicial foi de estupor”, explica o encenador Àlex Ollé, “não apenas pela violência do acontecimento, também porque essa violência invadiu um teatro, um espaço que até esse momento sempre estava relacionado com coisas gratas e positivas”.

Com a excepção de um incêndio de 1996, o Coliseu do Porto é também espelho de “coisas gratas e positivas”. E Portugal apenas conhece o terrorismo pelas notícias, agora que estão esquecidas as acções do final dos anos Setenta e Oitenta do século passado. Até hoje. Logo à noite, a peça “Boris Godunov” do co-director artístico de La Fura dels Baus Àlex Ollé vai ter uma ocupação do Coliseu por um comando terrorista.

Ontem à noite, a rua de Passos Manuel estava barrada ao trânsito. Apenas se via um grupo de forças especiais, com todos os elementos vestidos de negro, e uns poucos transeuntes mantidos nos passeios. “Vale!”, gritava um jovem em fato de treino e uma camisola de La Fura dels Baus, enquanto umas jovens, voluntárias do FITEI, anunciavam, “é só mais um bocadinho”. A primeira reacção era de susto, ou de incompreensão (ao fim e ao cabo não eram polícias que impediam a passagem, eram umas jovens), mas depois soltavam-se os sorrisos e sacavam-se os telemóveis para filmar a “acção do grupo de elite”.

A equipa da companhia catalã filmava uma das cenas que será transmitida hoje, durante a apresentação de “Boris Godunov”. O ponto de partida são os acontecimentos do teatro Dubrovka, em 2002, durante uma representação do musical "Nord-Ost" e os dois dias seguintes, em que no seu interior ficaram mais de 900 pessoas feitas reféns. Falhadas as negociações, as forças especiais entraram no teatro, a cena que filmavam ontem na rua de Passos Manuel. Morreram 130 dos reféns e 41 assaltantes.

La Fura dels Baus “quer ficcionar um acontecimento real e aproximar o teatro da sua contemporaneidade, como o cinema faz constantemente”. O caso real é apenas um ponto de partida, “os acontecimentos são retirados do seu contexto”, pois a ideia não é replicar o que se passou em Moscovo, não pretenderam “representar um terrorismo em concreto”. Por isso, também, em vez de "Nord-Ost", a peça que está a ser representada é “Boris Godunov”, de Alexander Pushkin.

A peça de Pushkin encaixa com o pretendiam mostrar (foto David Ruano/Fura)
A peça de Pushkin encaixa com o pretendiam mostrar (foto David Ruano/Fura)
“Boris Godunov”, segundo explica David Plana (dramaturgia e direcção cénica) é um texto, publicado em 1931, que fala do poder, da corrupção e do assalto ao poder de um homem que se faz passar por herdeiro legítimo do trono da Rússia. “Os paralelismos são importantes, os dois mundos, da realidade e da ficção, confluem e tocam-se”, refere Ollé. As partes da obras são seleccionados dentro do original e reescritos. “Durante o cerco, o espectador (um involuntário actor da tragédia) assistirá às disputas internas no grupo e a luta pelo poder, assim como o funcionamento do gabinete de crise (do Governo, no caso Ocidental afastando-se da situação original) e a figura do mediador de conflitos”, um "papel” que na situação original foi desempenhado pela jornalista Anna Politkovskaya.

“Os espectadores e os seus captores converteram-se em vítimas, umas inocentes, outras imoladas”, a jornalista Anna Politkovskaya acabou por ser assassinada um ano depois, por desconhecidos. David Plana explica que o texto foi escrito a partir da selecção de cenas necessárias ao argumento, a actualização da linguagem da obra (de 1931) e a colocação de políticos reais nos acontecimentos.

A vivência de um medo contemporâneo (foto David Ruano)
A vivência de um medo contemporâneo (foto David Ruano)
La Fura dels Baus querem que os espectadores enfrentem um dos principais medos contemporâneos: ser vítima de um ataque terrorista, uma proposta sem fronteiras mas que pode ser recebida de forma diferente segundo a sensibilidade do espectador e as experiências anteriores. A reacção dos espectadores portugueses será decerto diferente da reacção dos espanhóis, por exemplo. E não apenas do ataque terrorista. Àlex Ollé, que foi também um dos responsáveis pela cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, F@ust 3.0, a partir de Goethe, e XXX, do Marquês de Sade, explica que “o terror é a resposta que, em alguns casos, damos ao terror. Este paradoxo é a essência do Boris Godunov de Pushkin: um impostor faz o assalto ao poder disposto a deitar abaixo um governante corrupto e todos sabemos que não vai ser melhor do que o que pretende derrubar”, explica. “Rejeito todo o tipo de violência”, sublinha, “totalmente e sem nenhuma excepção, ou seja, rejeito o terrorismo e as suas consequências”.

A “construção” da peça passou por um palco quase despojado, imagens projectadas num ecrã (como as filmadas ontem à noite em Passos Manuel e a da reunião do "gabinete de crise") e música criando uma atmosfera de claustrofobia e um ambiente hiperrealista, diz Ollé. Foi desenhada pelos La Fura dels Baus a pensar no espectadores do Dubrovka e a sua replicação dramatizada: “Pensei nos reféns, esgotados, sentados no seus lugares do teatro. Pensei em como, da maneira mais terrível, um grupo terrorista tinha escrito um guião com um final aberto e imprevisível”

No fundo, é um “espectáculo La Fura dels Baus”, uma peça de um grupo de culto com milhares de seguidores e que não estavam no Porto há oito anos, embora tenham participado no Imaginarius, em Santa Maria da Feira.



Comentários

malu, em 2009-10-13 às 18:58, disse:
deveria falar mais sobre la fura dels baus com mais imagens

bruna, em 2009-09-30 às 02:16, disse:
eu acho que deveria falar mais sobre o grupo'la fura dels baus'pois fala muito pouco.bjusss

thays, em 2009-09-29 às 18:36, disse:
esta email em muito interesante.
pois eu gostei muito e,é, muito bom pra perquisa


O seu comentário:


O seu nome:


O seu email (não será publicado):






Ciência Viva TV
FCCN - Fundação para a Computação Científica Nacional Ciência Viva


Contactos
Ficha técnica
Estatuto Editorial
Conselho Científico
A Palavra do Leitor
Portuguese Science