Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
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«O essencial está na atitude científica»

Pedro Lima, investigador no Instituto de Sistemas e Robótica, em entrevista

2009-07-07
Por Porfírio Silva

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Pedro Lima, trustee da Federação<br>Internacional RoboCup
Pedro Lima, trustee da Federação
Internacional RoboCup
Para fazer um balanço da participação portuguesa no RoboCup 2009, o «Ciência Hoje» entrevistou em Graz um dos investigadores com responsabilidades nesta iniciativa, Pedro Lima, professor do Instituto Superior Técnico e investigador no Instituto de Sistemas e Robótica. É um dos trustees da Federação internacional RoboCup e presidente da Sociedade Portuguesa de Robótica.

CiênciaHoje: Agora que está a terminar a edição 2009 do RoboCup, que balanço é possível fazer da participação portuguesa?

Pedro Lima:
A participação portuguesa foi, uma vez mais, muito boa. Quer em número de participantes (normalmente temos a quinta maior delegação), quer em resultados. Há sempre equipas portuguesas a conquistar lugares de topo. Nos seniores, além do excelente resultado da Cambada (Aveiro), uma das equipas portuguesas a concorrer na liga de simulação fez um bom percurso. Nos juniores, há várias equipas portuguesas nos lugares de topo em várias modalidades e alguns primeiros lugares. Esta presença constante mostra muita força na área da robótica, em termos de educação e de investigação.

CH: Outro aspecto é a participação portuguesa nas estruturas internacionais do RoboCup. Qual é o balanço nesse plano?

P.L.:
Uma coisa influencia a outra: a forte participação e os bons resultados favorecem o impacte nas estruturas. Este ano ficamos com dois trustees [direcção de topo da federação] e estivemos para ter mais um se não fosse excessivo para um só país. Eu próprio acabei um mandato e fui reconduzido. Temos dois representantes na direcção executiva, além de muitos portugueses nos comités técnicos (que decidem as regras) e nos comités organizativos. Globalmente, é uma presença portuguesa mesmo muito forte.

CH: Um dos aspectos interessantes deste movimento é a combinação de investigação científica e de aplicação tecnológica com a divulgação e a educação. Como é que o equilíbrio destes vários elementos funcionou nesta edição?

P.L.:
Essa combinação é muito importante e é um dos atractivos do RoboCup. Em todas as actividades há uma componente de promoção. No sector júnior, é claro que o foco é a educação. Já nas ligas seniores é necessário assegurar que o foco esteja na investigação e os trustees trabalham para que assim seja. Desde incentivar os participantes a publicar em boas revistas e em boas conferências, fora da nossa comunidade. Passando por afinar as regras das competições de modo a que elas promovam a investigação, e não apenas o sucesso competitivo. E isso não é evidente: se o modelo é de competição, as equipas naturalmente querem ganhar. O que se procura é que as regras favoreçam na competição as equipas que façam boa ciência, o que não é trivial. Uma equipa com uma solução muito específica para um problema competitivo pode ganhar às que estão a fazer coisas mais complexas, com soluções mais gerais, aplicáveis noutros domínios. Dou um exemplo do futebol na Liga dos Robôs Médios. Há alguns anos que se tenta promover mais passes durante os jogos, como forma de cooperação entre robôs. Mas, se os robôs conseguem, dentro das regras, agarrar e segurar a bola com muita facilidade, há pouco incentivo para fazer com que haja muitos passes para outros robôs, correndo o risco de perder a bola, enquanto driblar e rematar de forma individualista pode dar mais golos. É o ajuste das regras a estes factores que é delicado. De qualquer modo, o essencial está na atitude científica dos próprios investigadores, que não se ficam pela pura competição. Temos progredido neste equilíbrio. O RoboCup aparece de ano para ano como mais interessante para gente de peso na comunidade científica da Robótica, da Inteligência Artificial e da Ciência da Computação. E há cada vez mais artigos científicos com resultados deste trabalho.

CH: Longe dos olhares do público, há durante o RoboCup reuniões frequentes dos líderes das equipas, onde vão discutindo, nomeadamente, esse afinamento futuro das regras para as tornar mais amigas da investigação científica. Há tendências para o futuro que se possam detectar nessas discussões?

P.L.:
Um dos tópicos que permanece ao longo dos anos trata de tornar a percepção cada vez mais natural, por exemplo abandonando o truque de marcar os objectos relevantes (bola, balizas) com certas cores para facilitar a tarefa aos robôs. Essa evolução há-de permitir no futuro deixar o ambiente interior e passar para o exterior. Outra das tendências é para promover a cooperação, pôr mais do que um robô a fazer o que quer que seja. Além do passe, já mencionado, há o exemplo da partilha de informação: quando um não vê, os outros dão-lhe informação. Também nos interessa a cooperação entre robôs e humanos, um ponto quente que é pertinente por exemplo na busca e salvamento.

CH: Esta edição deu algum contributo novo para um maior reconhecimento da valia científica do RoboCup?

P.L.:
Há alguns anos que tentamos trazer cá representantes de organizações que financiam a investigação. É que o aspecto “competição” suscita algumas dúvidas. Outro problema é que, em vez de tratarmos cada sistema isoladamente, aqui segue-se em grande medida a abordagem da integração de sistemas, o que nem sempre é bem visto. No quadro da natural disputa pelos financiamentos, estes factores às vezes são desfavoráveis. Por isso estamos muito satisfeitos por termos conseguido este ano que Libor Kral, chefe da Unidade de Sistemas Cognitivos, Robótica e Interacção, da Comissão Europeia, tenha vindo aqui observar de perto esta realidade. E por, em resultado do que viu, ter expressado o quanto ficou impressionado com este trabalho, afirmando que esta comunidade tem de ter mais peso nos projectos europeus de investigação. É importante que a Comissão Europeia reconheça o interesse científico desta iniciativa, apesar de (ou talvez por) ela não ter um cariz muito tradicional.

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