Correspondência de notáveis
revela padrões de conduta
Cientista português Luís Nunes Amaral, líder do estudo, conversou com «Ciência Hoje»
2009-10-23
Por Luísa Marinho
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| Luís Amaral, investigador da Northwestern University |
Compreender os padrões de comportamento do ser humano pode ser útil e muitas vezes crucial para várias actividades. Uma equipa de investigadores da Northwestern University, Evanston, EUA, levou a cabo uma criativa investigação em que analisou os padrões de correspondência de personalidades como Darwin ou Einstein.
Luís Nunes Amaral é professor de Engenharia Química e Biológica e responsável pelo Laboratório de Biologia de Sistemas e Sistemas Complexos. O investigador português, que trabalha há vários anos nos Estados Unidos, explicou que a correspondência era uma boa base de análise porque é das poucas actividades em que se pode acompanhar o indivíduo durante a vida inteira. O estudo foi publicado recentemente na «Science».
“Há muitas áreas em que é crucial perceber os padrões de actividade”, diz o investigador. Um exemplo é a área da saúde.
“Num estudo feito pelo National Research Council, chegou-se à conclusão que muitas das mortes nos hospitais se devem a erros médicos e o número de mortes evitáveis é de 100 mil por ano (nos Estados Unidos)”.
“Os erros acontecem porque somos seres humanos e não máquinas. Como temos de tomar muitas decisões ao longo do dia, pode acontecer a um médico ou a um enfermeiro não lavar as mãos quando se desloca de um quarto para o outro ou errar na dose de medicamento a ministrar”, explica.
É por isso importante tentar
“clarificar” padrões:
“será que somos absolutamente racionais quando tomamos decisões ou somos governados por aspectos da rotina?”.
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| Dean Malmgren, investigador envolvido no estudo |
Para realizar o estudo, Luís Amaral, Dean Malmgren, Daniel Stouffer e Andriana Campanharo tiveram acesso à correspondência completa de várias personalidades, bem como a correspondência electrónica. Ao analisar ambas, perceberam que as decisões do indivíduo neste campo podiam ser descritas por um modelo matemático.
Chegaram então a determinadas conclusões.
“A probabilidade de escrever uma carta ou um email varia durante as horas do dia e conforme os dias da semana. Durante a noite, às horas de refeições ou aos fins-de-semana, diminui essa probabilidade”.
Percebemos também que ao iniciarmos essa actividade é bem provável que continuemos a fazê-la, como, por exemplo, enviar vários emails. Isto porque
“mudar de actividade requer esforço mental, ou seja, a eficiência aumenta quando mantemos uma actividade”.
Descrevem-se, então, vários mecanismos.
“Enquanto a probabilidade de iniciar uma actividade é de certo modo aleatória, a probabilidade de a manter aumenta quando iniciada”. É o que os investigadores chamam de
“avalanches de actividade”. Estes mecanismos, contudo, vão mudando ao longo da vida e conforme as necessidades pessoais.
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Juntamente com Daniel Stouffer, a brasileira Adriana Campanharo completa a equipa |
A criação de um modelo matemático que este estudo possibilitou é, para os investigadores, importante:
“É possível que o modelo funcione para outras actividades e assim podemos começar a pensar como modificar comportamentos”.
As aplicações práticas serão muitas.
“Podemos conseguir desenvolver estratégias para melhorar diversas actividades. Por exemplo, acompanhar um indivíduo que tem de seguir um determinado plano terapêutico”, considera o investigador.
“Seguir um complexo plano terapêutico, em que se têm de tomar muitos comprimidos por dia, não é fácil. E isto não tem a ver com a força de vontade, mas sim com as nossas próprias limitações, porque temos de nos ajustar a muitas actividades”, remata Luís Amaral.
Artigo:
On Universality in Human Correspondence ActivityComentários
Raquel Pinto, em 2009-10-26 às 16:59, disse:
Quanto....
«A criação de um modelo matemático que este estudo possibilitou é, para os investigadores, importante: “É possível que o modelo funcione para outras actividades e assim podemos começar a pensar como modificar comportamentos”. »
Este modelo pelo entendi foi aplicado para aqueles individuos que tem que seguir um plano terapêutico...mas tenho as minhas dúvidas quantos aos restantes...!
Nem todos seguimos o mesmo "caminho" para a tomada de decisões durante a vida: seres aletórios, grande parte...!!!Luís, em 2009-10-26 às 11:57, disse:
A propósito de...
“Enquanto a probabilidade de iniciar uma actividade é de certo modo aleatória, a probabilidade de a manter aumenta quando iniciada”. É o que os investigadores chamam de “avalanches de actividade”
...É curioso e engraçado como estes mecanismos fazem lembrar o adágio popular, «o comer e o coçar estão no começar».