“Não há forma correcta de fazer transferência de tecnologia”
David Gill acredita que Portugal pode evitar
erros cometidos no Reino Unido
2009-11-02
Por Liliana Leandro
David Gill, responsável pelo St John’s Innovation Centre (considerada a maior e mais importante incubadora do Reino Unido), defende que a transferência de tecnologia para o mercado é um processo difícil, não se devendo subestimar as boas relações com os académicos e os investigadores. O especialista acredita que o Reino Unido tomou a dianteira nesse processo e que em Portugal organizações como a UTEN (University Technology Enterprise Network) permitirão acelerar todo o procedimento, evitando os erros cometidos pelos próprios britânicos nos primeiros anos, quando o entusiasmo triunfava sobre uma experiência limitada.
“Não há uma forma correcta de fazer transferência de tecnologia. Aprende-se com a experiência mas em cada caso é preciso fazer ajustes às circunstâncias em que se está inserido”, referiu David Gill em entrevista ao Ciência Hoje, depois de ter participado no 5.º workshop promovido pela rede UTEN|Portugal, que decorreu no passado mês de Outubro na Universidade de Aveiro.
Para Gill, as transferências de tecnologia, e outras formas de colaboração entre académicos e a indústria, são levadas a cabo principalmente por quatro razões: obter subsídios do governo, obter receitas a partir de licenças, crescimento económico de spin-outs e desenvolvimento do potencial dos próprios alunos.
A forma eficaz de desenvolver uma transferência leva o seu tempo, devendo existir uma proposta clara nesse sentido. Posteriormente, há que gerir toda uma série de políticas, actividade e recursos que passam desde a criação de uma cultura de empreendedorismo até à obtenção de financiamento.
Da pesquisa surgem novas soluções, passíveis de implementar no mercado. Porém, e para evitar que a tecnologia se limite a um projecto guardado na gaveta, há que completar todo um percurso, no qual não podem faltar “pessoas de qualidade, com dinheiro de qualidade”. É também necessário encontrar clientes de referência o mais cedo possível em todo o processo e estar preparado para vender quer a própria tecnologia desenvolvida quer a empresa entretanto formada, para um rápido retorno do investimento e para uma rápida captação do mercado.
O cluster de Cambridge
Em 1987 nasceu o St. John’s Innovation Centre como resposta a um relatório feito em 1970 que sugeria uma expansão na área da indústria científica do Parque de Ciência de Cambridge. Eram dados assim os primeiros passos para o actual cluster de Cambridge que hoje congrega 1.400 empresas de tecnologia de ponta e aproximadamente 43.000 profissionais. As áreas desenvolvidas centram-se em seis grandes grupos: tecnologia de informação, comunicações móveis, biotecnologia, electrónica, nanotecnologia e impressão.
O centro de inovação de St. John’s oferece actualmente os serviços de incubação virtual, acomodação para empresas de curta e longa duração e apoio às empresas. Uma das funções principais, referiu David Gill, é a promoção de um sentimento de comunidade dentro do centro e entre as empresas que aí se encontram. Procura-se ainda integrar as novas empresas no grande ecossistema de tecnologia de ponta de Cambridge. Além do centro de inovação, foram criados, na Univerisidade de Cambridge, o Judge Institute of Management Studies (1990), o Institute for Manufacturing (1998), a Cambridge Network (1998), a Greater Cambridge Partnership (1998), o Entrepreneurship Centre (1999) e o University Challenge Fund (1999).
Comentários
José António Salcedo, em 2009-11-04 às 19:29, disse:
Transferência de tecnologia apenas se faz com eficácia através da transferência de pessoas. Devemos investir esforço e recursos para quebrar as barreiras à mobilidade de pessoas entre diferentes tipos de instituições.