Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
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Artistas e investigadores debatem o tema «arte e ciência»

Uma polémica para o século XXI

2009-11-15
Por Susana Lage (texto e fotos)

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O debate reuniu investigadores e artistas na Cordoaria Nacional
O debate reuniu investigadores e artistas na Cordoaria Nacional
Como se define a arte que usa a ciência para criar? Será esta uma forma de expressão artística inovadora? Um novo movimento na arte? O que distingue a arte da ciência? Se a arte beneficia com a sua aproximação à ciência que interesse tem esta em envolver-se com artistas?

Estas foram algumas das questões debatidas ontem na Cordoaria Nacional, em Lisboa, no âmbito da exposição Inside [arte e ciência]. Leonel Moura (artista), Carlos Cordeiro (bioquímica), José Bragança de Miranda (pensamento), Luís Graça (medicina molecular), Marta de Menezes (artista) e Rudolfo Quintas (artista) foram os convidados a debater, juntamente com o público, a influência da ciência no processo criativo.

Carlos Cordeiro (bioquímica) e José Bragança de Miranda <br> (pensamento)
Carlos Cordeiro (bioquímica) e José Bragança de Miranda
(pensamento)
Durante o debate alguns investigadores levantaram a questão se todas as obras expostas estariam de facto relacionadas com a ciência em si. Mais à frente discutiu-se a diferença entre produção de conhecimento e produção de ciência.

Alguns dos artistas presentes afirmaram que a arte, por vezes, vai à frente numa atmosfera que a ciência ainda não criou. No que respeita às diferenças entre arte e ciência, uma das ideias apresentada colocou esta como solução de problemas e aquela como criadora de problemas. Outra concepção apontou que a arte é irrefutável enquanto a ciência não.

Uma nova expressão

Um dos pontos de consenso durante a discussão revelou que quase todas as expressões artísticas se cruzaram, em algum momento histórico, com a ciência. Actualmente, esta tendência expressa-se através do uso da biotecnologia, da robótica ou da inteligência artificial.

No ponto de vista de Leonel Moura, a colaboração entre arte e ciência é evidente
No ponto de vista de Leonel Moura, a colaboração entre arte e ciência é evidente
“Este debate foi extremamente interessante porque tivemos três coisas que são fundamentais: tivemos o ponto de vista dos artistas, tivemos o ponto de vista dos cientistas e tivemos o ponto de vista crítico da ciência”, afirma Leonel Moura ao Ciência Hoje. “A combinação destes três componentes, a arte, a ciência, mas também o componente da crítica, é que nos levam a tirar algumas conclusões, nomeadamente para onde é que a arte está a caminhar, para onde é que a ciência está a caminhar e para onde é que está a caminhar a possível intersecção das duas”, explica o artista.

Segundo Leonel Moura, é difícil dar um nome a esta nova forma de arte do século XXI. “De certa maneira não temos uma palavra para definir este tipo de arte que está aqui representado na Cordoaria, mas uma coisa é clara, esta tendência de colaboração entre arte e ciência é evidente e está a espalhar-se por todo o mundo”, afirma o comissário da exposição.

“O que se ouve mais falar é de arte e ciência, ainda que existam estas indefinições. Mas estamos numa fase em que estamos a construir uma tendência histórica”, acrescenta.

Centenas de visitantes

‘Retrato Proteico’ de Marta de Menezes
‘Retrato Proteico’ de Marta de Menezes
A exposição Inside [arte e ciência], inaugurada no passado dia 24 de Setembro, tem atraído centenas de visitantes de todo o país. “Continuamos a ter imensas pessoas, hoje vieram mais de cem, o que é muito pouco comum, principalmente neste espaço e num dia chuvoso”, diz Leonel Moura. “A exposição tem conquistado público através do público. Não temos campanhas de publicidade, as próprias pessoas que vêm cá acabam por recomendar a outras”, revela o artista.

Até dia 24 deste mês, ainda é possível visitar a mostra e descobrir como diferentes artistas criam e expressam a sua arte através do uso da ciência.

'Ratos Geneticamente Modificados' por Catherine Chalmers
'Ratos Geneticamente Modificados' por Catherine Chalmers
“A exposição foi muito importante para dar conhecer este movimento. Foi muito importante para jovens artistas, já vieram aqui as principais escolas de arte do país”,
afirma Leonel Moura. E acrescenta: “Esta exposição, como ambicionava desde o início, vai ser marcante na arte portuguesa”.

Para o último dia do projecto, Dia Nacional da Cultura Científica, está agendada uma grande festa ‘Viva Ciência’ e uma exposição dedicada a Rómulo de Carvalho, um dos grandes impulsionadores da ciência em Portugal.



Comentários

MARGARIDA MARIA VAZ, em 2010-03-28 às 03:24, disse:
GOSTARIA DE TER PARTICIPADO, ESSAS COISAS NÃO CHEGAM PARA NÓS PROFESSORES, PRINCIPALMENTE DA ESCOLA PÚBLICA.
ARTES E CIÊNCIAS VIVEM JUNTAS. ESSA QUE OS CONHECIMENTOS SÃO PARCELADOS, IMPEDE MUITA INTEGRAÇÃO E COM ISSO TODOS PERDEM.


wallysson, em 2009-11-25 às 23:53, disse:
de onde surgem a arte e a ciência ?
pois tenho um trabalho sobre isso e não estou conseguindo responder ,desde já agradeço.


Helena, em 2009-11-16 às 16:06, disse:
É preciso aprofundar a arte da ciência e a ciência da arte.

Carlos Corrêa, em 2009-11-16 às 14:53, disse:
Tanto a Ciência como a Arte assentam no homem. Podem tocar-se por serem ambas actividades humanas, mas ligar a Ciência à Arte parece-me um oportunismo do tipo da ligação da culinária à Química! A culinária é uma arte que não necessita das explicações científicas dos fenómenos. Até aos presidentes de câmara chegou o entusiasmo pela Ciência!
É interessante para os químicos explicar os fenómenos em que a culinária e a Arte se baseiam, mas não é necessário saber qual a composição química do vermelhão para pintar um belo por do Sol, nem saber a composição química do gesso ou do mármore para fazer uma bela escultura. Admito que os químicos procurem mostrar a importância desta Ciência realçando as suas ligações com tudo o que nos rodeia, nomeadamente com aquilo que a Arte e a culinária produzem, como um modo de incentivar aqueles que iniciam o seu estudo, mas o inverso não me parece necessário. Parece que a Ciência está na moda, embora seja maltratada a muitos níveis, nomeadamente na divulgação nas televisões da bruxaria, astrologia e outras manifestações de estupidez, como a previsão de catástrofes e cataclismos universais. As "produções" televisivas dos programas da manhã (exceptua-se a RTP) gostam de nos inundar com esses bruxos, videntes e exorcistas, alguns deles uns homenzinhos ignorantes e boçais, sem nenhuma atitude educativa, mas com o objectivo imediato de ganhar audiências (que belas audiências...).
A Arte (e a culinária) não necessitam de explicações científicas para terem qualidade. Basta-lhes utilizar aquilo que a Ciência lhes proporcionou.


antónio saias, em 2009-11-16 às 12:56, disse:
Arte e Ciência por PESSOA
:
o binómio de Newton não é menos belo do que a Vénus de Milo
Não há é muita gente que saiba dar por isso


cristina, em 2009-11-16 às 11:20, disse:
maravilhosa associação!!!... e mt bem colocada a inspiração em Pessoa..., muitos parabens

João Claudinei Moreira, em 2009-11-16 às 10:21, disse:
A Arte foi e é a primeira forma de manifestação científica. A Ciência molda a realidade que temos, levando em consideração o que se conhece a esse respeito. A Arte invoca a imprevisibilidade dos fatos. Desmolda a realidade, dando-lhe a devida fluidez. Passos na lua que apenas alguns cientistas irão dar e que a maioria jamais aceitará ser possível.

antónio saias, em 2009-11-15 às 19:34, disse:
muitas vezes a arte é um refúgio para quem por qualquer motivo não teve acesso à Ciência.
polivalentes como Da Vinci saltam de uma para outra com a naturalidade de quem se sente à-vontade em qualquer uma.
eis a minha leitura sobre o gigantismo universal da poesia de Fernando Pessoa:

Pessoa só é poeta
porque ninguém acredita
que a sua arma secreta
é mais ciência que escrita

leitura de leigo, claro


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