Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
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A criatividade toca a todos
ou vamos pintar a chuva de azul

2009-11-29
Por Ana Vieira de Castro*

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Durante toda a sua vida Isabel C. sentiu que lhe faltava alguma coisa de essencial. Quando tinha 12 anos começou a escrever um diário onde apontou durante alguns anos todas as peripécias da sua vida, pequenas histórias, tristezas, lágrimas e alegrias. Não só gostava, como precisava de escrever. Mas a partir da adolescência deixou de o fazer, não conseguia alinhar duas palavras, sentia-se bloqueada.

Os anos passaram, Isabel acabou por fazer uma série de actividades mas o sonho da escrita nunca a deixou. Tinha entrado numa certa depressão e,anos depois, recorreu a uma terapeuta que a ajudou a ultrapassar essa fase.

* Jornalista, nova colaboradora de Ciência Hoje para a área da Psicologia



Curiosamente, cerca de oito ou dez meses após ter iniciado a terapia começou a escrever naturalmente, sem esforço, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. Pela primeira vez tomou consciência da sua criatividade, ela que achava que não tinha nada para dizer. Pouco tempo depois estava a colaborar com uma revista onde acabou por vir a trabalhar.

Especialistas em criatividade sugerem:

Não pensar em nada faz falta. De vez em quando é preciso descansar a cabeça e deixar vaguear os pensamentos, sem os controlar. Esse tempo de tranquilidade e silêncio renovam a forma como vemos o mundo. Quando a poeira assenta no chão, novas imagens emergem.

Reencontrou a sua velha paixão: cruzar ideias, explorar assuntos e criar novas realidades através das palavras. Brincar com elas, trocá-las, explorar conceitos, inventar expressões, descobrir sentidos diferentes no que se diz e escreve. Hoje, para Isabel escrever é tão natural como respirar mas o treino, o estudo e a exploração diária de novos temas e assuntos ajudam muito.

Parece simples mas na verdade não é. Isabel fez um longo caminho até conseguir usar a sua criatividade mas nem todos chegam lá facilmente. A prova é que muitos de nós trabalhamos a vida inteira em actividades de que não gostamos particularmente.

Pessoas já exaustas ainda a semana mal começou
Pessoas já exaustas ainda a semana mal começou
A síndrome das segundas-feiras é o melhor exemplo disso, quando vemos a expressão cansada e o olhar vazio com que as pessoas chegam ao emprego, já exaustas ainda a semana mal começou. Quem falou em inventar, criar, cruzar ideias, trilhar novos caminhos, dar largar à imaginação? Parece impossível num mundo tão cinzento. Mas não tinha de ser assim.


Um incentivo e uma oportunidade


Aparentemente, todos somos potencialmente criativos, basta gerar as condições necessárias para desenvolvermos essa capacidade. Basta um incentivo e uma oportunidade para nos permitirmos por em andamento a nossa capacidade de experimentar, descobrir, elaborar, juntar pensamentos diferentes, relacionar palavras, sons ou movimentos e chegar a uma ideia, produto ou objecto novo, diferente de tudo o que até aí se fez.

Especialistas em criatividade sugerem:

Abertura e curiosidade são essenciais para «alimentar» a criatividade. Isto implica julgar menos, censurara menos, ser mais maleável, compreensivo e aberto a novas ideias. O que é novo é saudável. Um mundo fechado tem tendência a ficar pouco «oxigenado. 
 

Toda uma dinâmica que Sara Bahia, professora auxiliar da Faculdade de Psicologia de Lisboa e especialista no assunto, descreve como a «capacidade para produzir, fazer ou tornar algo em qualquer coisa nova e válida tanto para si como para os outros», usando uma definição de Poppe (2005), sua preferida. «É uma capacidade e não um mero estado», sublinha. Tem ainda a ver com «realização, construção, edificação de algo físico mas também ideativo».

Essa criação deve ser uma «novidade para o próprio, para a pequena comunidade onde o criador se insere e também para o mundo», o que implica, naturalmente, «adequação, flexibilidade e originalidade» do produto criado ao meio onde vivemos.

Os miúdos embrenham-se no seu próprio mundo de invenções
Os miúdos embrenham-se no seu próprio mundo de invenções
Falando de circunstâncias e oportunidades que são essenciais para desenvolver a nossa criatividade potencial, não podemos deixar de referir o momento da infância. Se as deixarmos, as crianças começam a brincar e a criar precocemente e esse factor é crucial para o desenvolvimento da criatividade. Há escolas que utilizam pedagogias que favorecem particularmente a capacidade que as crianças têm de pensar e criar por si próprias.

É o caso de Mário e Luísa, de doze e dez anos, filhos de João, que é pintor, e de Maria que é realizadora de cinema. Em casa, a criatividade é palavra de ordem. As crianças frequentam desde pequenas uma escola pioneira do Movimento da Escola Moderna, criada nos anos sessenta, em que a expressão criativa é estimulada e favorecida ao máximo.

Pequenos génios de criatividade

Enquanto os pais conversam, os miúdos, que não estão particularmente interessados em agradar seja a quem for, embrenham-se no seu próprio mundo de invenções. Desenham incansavelmente – para onde vão carregam sempre uma pilha de canetas coloridas mas não desdenham usar o que tiverem à mão para construírem, todo o tempo, mundos improváveis.

Especialistas em criatividade sugerem:

Treine a maleabilidade. Aprenda a pensar num problema sob vários ângulos, de várias formas, invertendo os pressupostos, variando as perspectivas. Do ponto de vista fisiológico, o cérebro é maleável, as suas funções não se restringem a áreas específicas. Cada área pode acumular várias funções. Por isso, treine-o e ele responderá mais rápida e acertadamente às questões que se lhe apresentarem.

Alheios às conversas dos adultos, inclinam-se em silêncio na mesa do pequeno restaurante, fazem jardins, árvores, barcos e lagos na toalha de papel, usam os garfos e as facas como remos imaginários, empilham fósforos, têm longas conversas em surdina, alheados do mundo maçador dos adultos.

«Desde muito pequenos que se habituaram a entreterem-se com o que encontram, estejam onde estiverem,», diz a mãe orgulhosa. São muitos criativos, acrescenta o pai. Têm a quem sair, é certo, pai e mãe frequentaram a mesma escola dos filhos, há uns bons anos atrás.

Olhando-os tão concentrados e atarefados num muindo de faz-de-conta, ocorre-nos que estes pequenos génios de criatividade poderão vir a governar o mundo, inovando com facilidade e aproveitando recursos de formas originais. Dir-se-ia que o meio foi decisivo para desenvolverem a capacidade criativa, e assim foi, de facto.

Proibir limita a maneira <br> de olhar para a realidade
Proibir limita a maneira
de olhar para a realidade
Observado de fora, o fluxo de criatividade a que Mário e a Luísa têm fácil acesso parece-nos perfeito. Seria bom se todas as crianças se sentissem tão à vontade para criar mas os contextos escolares e familiares têm tendência a formatar as crianças, «não permitindo erros, explorações, diferentes meios para obter soluções diferentes», diz Sara Bahia.

As proibições e os interditos que a família e a escola vão colocando à criança introduzem muito precocemente uma maneira de olhar para a realidade que as vai limitar na sua expressão criativa futura, nomeadamente através de mecanismos de auto-limitação.

Todos estamos aptos

Respeitar a diferença e a liberdade criativa é essencial. Pintar a chuva de azul não devia suscitar críticas porque em matéria de criatividade não há certo nem errado. Tudo o que é inovar e fugir aos padrões convencionais é muito estimulante em termos de incentivo à criatividade. É preciso desconstruir a ideia de que é preciso ser-se um génio para criar.

Todos estamos aptos a construir um objecto original, a compor uma música única, a escrever um livro ou apenas a inventar um cozinhado simples e saboroso numa bela manhã de domingo, com dois ou três ingredientes e uma boa pitada de imaginação.

Especialistas em criatividade sugerem:

Trabalhe em rede, sempre que possível. Hoje, cada vez mais se trabalha em equipa, estimulando a troca e a partilha de ideias. Ser criativo em conjunto é mais enriquecedor e produtivo do que pensar sozinho.

Aliás, a cozinha é muitas vezes o refúgio dos criativos frustrados com um dia a dia sem graça e que se vingam do tédio criando novos pratos, exóticos e saborosos. Ignorando os livros de receitas banais, claro, como acontece a Gonçalo, executivo de setenta anos já reformado e um verdadeiro self-made man na arte de cozinhar. Durante anos cozinhou aos fins-de-semana para os amigos e acabou por ir aperfeiçoando a sua arte.

Fecha-se na «sua» cozinha apetrechada com utensílios inimagináveis, livros do tempo da Idade Média, pós e ervas raros, dedicando-se a desvendar os segredos mais bem escondidos da arte culinária. No meio dos tachos e das panelas a fumegar, Gonçalo sente-se um verdadeiro cavaleiro andante, alheio ao mundo que o rodeia, transpirando de satisfação. Garante que se sente verdadeiramente feliz nestas ocasiões.

A importância da criatividade

Hoje, criar é música para o nosso cérebro
Hoje, criar é música para o nosso cérebro
Se quisermos ir ao cerne da questão deparamo-nos com incertezas. O conceito de criatividade não está muito estudado e suspeita-se que nele confluem vários factores, internos e externos, cruzando-se para criarem a diferença, à boa maneira dos criativos. Esta época é particularmente estimulante, nomeadamente no que diz respeito à criatividade. Há um forte apelo para nos renovarmos, para mudar, para ver as coisas de muitos ângulos. Já não estamos isolados no mundo, parados no tempo, as coisas rolam rápido e o que hoje é verdade, amanhã pode deixar de o ser.

Este cenário de «transformações tecnológicas radicais», diz Sara Bahia, tem dado lugar a «uma necessidade premente de inovação, de busca de novas soluções cada vez mais criativas». A importância de que a criatividade se reveste nas sociedades modernas é enorme. É preciso inventar, renovar, transformar e criar realidades diferentes num mundo cada vez mais exigente, que clama por uma readaptação constante à passagem do tempo.

Especialistas em criatividade sugerem:

Durma sobre os assuntos. Para ser criativo é preciso pensar, estudar, elaborar o pensamento e deixar tudo em descanso ou «incubação». Mais tarde, as respostas diferentes chegam. A criatividade não cai do céu, trabalha-se.

Muitas vezes, os desafios esmagam-nos: exigem-nos que sejamos inventivos, criativos, diferentes, ousados, exploradores e criadores de coisas novas todos os dias e a todas as horas, como se criar fosse um processo mágico, instantâneo e mecânico. Mas não é. Precisa de tempo, de informação, de preparação, de incubação e só depois surge o acto criativo.

Onde está a criatividade ?

Csikszentmihalyi quer saber onde está a criatividade
Csikszentmihalyi quer saber onde está a criatividade
Mihaly Csikszentmihalyi, psicólogo húngaro que emigrou para os Estados Unidos com 22 de idade, é hoje uma autoridade mundialmente reconhecida nestas áreas, sendo professor de psicologia e investigador em criatividade na Universidade de Chicago. Ao contrário de muitos teóricos, Csikszentmihalyi não se preocupou tanto em averiguar que processos cognitivos estão envolvidos na criatividade mas antes em «saber onde é que ela está». E ela está, justamente, no momento em que nos entregamos de uma forma total e absorvente a uma determinada tarefa.

Especialistas em criatividade sugerem:

Exercite a sua criatividade. Use a imaginação, a originalidade, a vontade de experimentar ideias novas, a capacidade de jogar imaginativamente com noções e combinações de ideias e de criar novas classificações e sistematizações que desafiam as convencionais.

Quando fazemos uma coisa de que gostamos, o tempo muda: uma hora passa num segundo, cinco minutos prolongam-se na nossa memória como uma eternidade. Quando o «fluxo de criatividade» passa, diz Csikszentmihalyi, «a noção do ego dilui-se, o tempo voa, e cada acção, movimento e pensamento seguem inevitavelmente a acção, o movimento e o pensamento anteriores como se tocássemos uma peça de jazz». Todo o nosso ser está envolvido no processo e o uso do nosso potencial criativo está no auge.

Trata-se de uma «experiência óptima ou autotélica», diz o psicólogo, ou seja, é uma «actividade intrinsecamente gratificante em que a vida se justifica no presente em vez de ficar refém de hipotéticos ganhos futuros». E onde está a criatividade? Pois bem, está justamente nesse fluxo que «eleva o curso da vida a outro nível», garante Csikszentmihalyi.



Comentários

Mª Helena, em 2010-01-01 às 22:16, disse:
Parabéns à nova colaboradora e à sua escrita entusiasmante.

Gabriel, em 2009-12-05 às 12:25, disse:
A criatividade nao é uma coisa mensurável. É uma forma de viver. A forma de viver. É fazer o que se gosta. Se todos nós seguíssemos isto nao precisávamos de estudá-la, medi-la, classificá-la, atribuir-lhe rótulos, analisá-la, matá-la. Julgo que enquanto estamos sob todos estes processos mentais, nao estamos a ser verdadeiramente criativos mas meramente intelectuais.

joaquim janeiro, em 2009-12-03 às 22:45, disse:
o que acho fantástico é a capacidade de comunicar da autora, a agradibilidade do que diz, o entusiasmo que transparece no texto. e isto sendo feito sobre conceitos bem estruturados, envolvendo actualidade temática e saber com sabedoria que é pessoal. fantástica "comunicação" sábia e sentida...

Joana, em 2009-12-02 às 12:35, disse:
Fantástico tema e mensagem inspiradora. Continuem por aí. É importante sermos a diferença que queremos ver no mundo.

Alexandre Santos, em 2009-12-02 às 02:09, disse:
O Homem sempre procurou e procura criar, tanto é assim que criou Deus como o ser que tudo cria.

Luisa Sacchetti Matias, em 2009-12-01 às 02:09, disse:
Muito estimulante! Perfeito para partilhar... Parabéns!

J.Ferreira, em 2009-12-01 às 00:39, disse:
Excelente!

Bernardo T., em 2009-11-30 às 16:06, disse:
Excelente e obrigado, pois talvez me consiga soltar.

Nelson S Lima, em 2009-11-30 às 13:59, disse:
Se é certo que a criatividade tem sido objecto de numerosas teorias e de ampla divulgação continua por explicar como o processo ideativo funciona. Na verdade, a criatividade só é válida desde que ela se traduza por ideias. Estas é que podem dar origem a avanços nos diferentes domínios da criação, da inventividade, da inovação e do conhecimento.
Ora, ter ideias não depende apenas da criatividade enquanto capacidade vista isoladamente mas de outros factores determinantes como a intuição, a inteligência, a emocionalidade, a dialógica e a efervescência cultural.
Também já se sabe que o relaxamento e os estados de fluxo não são os únicos que propiciam insights criativos. Está demonstrado que a "tensão psíquica" também provoca interessantes oportunidades para a produção criativa, em especial a ideação criativa e a inovação.


José Rafael Tormenta, em 2009-11-30 às 13:54, disse:
Gostei muito deste trabalho e é-me bastante útil em termos da minha investigação de doutoramento. Parabéns!

Carla, em 2009-11-30 às 13:34, disse:
É daqueles artigos que se devem ler para que nunca se esqueça que nós não temos nenhum problema ou somos únicos... Afinal há muita gente assim, como eu... e que afinal não sofre de pouca criatividade mas aplica-a em situações que não se comercializam! A cozinha faz de mim a melhor chefe de cozinha sem um único restaurante aberto e com a carta de mesa mais recheada e única possível! Vou colocá-lo onde o possa ler constantemente! Muitos parabéns.

Nelson S Lima, em 2009-11-30 às 12:49, disse:
Parabéns. É um trabalho muito interessante de introdução à criatividade humana.
Permita-me, porém, salientar que aquilo que é importante na criatividade não é a faculdade (ou aptidão) em si mesma mas o produto final, isto é, as ideias e a sua utilidade (na nossa vida privada, no trabalho, na tecnologia, na arte, na ciência, na política, etc.).
Curiosamente, as ideias, que podem ser originais ou simplesmente produtos da expansão de outras (dando origem à inovação ou à imitação criativa, por exemplo) não são apenas fruto da criatividade (muitas vezes vista como uma capacidade isolada) mas de um complexo funcional onde entram também a intuição, a inteligência, a emoção e muitos outros processos mentais, onde se destaca a memória.
Assim, a produção de ideias criativas, não depende apenas da criatividade mas de muitos outros recursos psicológicos, culturais e ambientais. Talvez por isso seja difícil "ensinar" criatividade (se entendida como "disciplina" que pode ser aprendida) embora seja possível promover condições para que as pessoas libertem o seu potencial criativo. Mas, como disse, entre criatividade e ideação criativa (a produção de ideias) hajam diferenças que não apenas conceptuais.
Cumprimentos
Nelson S Lima
Centro de Engenharia de Ideias
Instituto da Inteligência


Teresa Leite, em 2009-11-30 às 11:31, disse:
Excelente artigo.
Parabéns.
Desta vez vou imprimir para ler com mais atenção.


Pedro, em 2009-11-27 às 17:24, disse:
Muito Bom. Parabéns!

Fernando Angelino, em 2009-11-27 às 10:27, disse:
Um bom artigo! Parabéns.

Joana feio, em 2009-11-27 às 01:35, disse:
Perfeito!

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