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Charles Darwin, «o provocador»

Debate do INESC levantou a polémica acerca
da abrangência do darwinismo

2009-11-27
Por Carla Sofia Flores

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Debate juntou especialistas com posições divergentes
Debate juntou especialistas com posições divergentes
Engenheiro ou biólogo, o autor de “A Origem das Espécies” continua a gerar controvérsia no seio da comunidade científica. Prova disso foi o debate “Senhor Engenheiro Darwin”, que decorreu ontem no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto ( INESC) e que foi pautado pelo bom humor e pelas posições vincadas dos seus intervenientes e da própria audiência.

Naquilo que se tornou uma conversa animada e fervorosa, estiveram presentes Vladimiro Miranda, director do INESC-Porto, e Pedro Oliveira, docente da Universidade do Minho (UM), que defenderam Darwin como um engenheiro. Sara Silva, investigadora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), explicou a importância do darwinismo na cultura. Por sua vez, António Amorim, investigador e vice-presidente do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), assumiu-se como aquele iria “refutar” tudo o que foi dito sobre Darwin como naturalista, apresentando-o como um "vilão".

Ninguém saiu “vencedor”, mas ficou bem patente que, tal como Sara Silva afirmou, “ Darwin ainda não foi metabolizado nem assimilado. Ainda nos está a provocar”.

"Sr. engenheiro Darwin é uma provocação"

Vladimiro Miranda, que também foi responsável pela organização desta iniciativa, assumiu que a própria denominação “Senhor Engenheiro Darwin”, se tratava de uma “provocação” para lançar a discussão sobre a verdadeira essência do naturalista. “Houve um assalto ao darwinismo pelos biólogos. Darwin não é só ‘biologia’ ”, explicou.

Vladimiro Miranda defendeu que Darwin<br> foi um engenheiro
Vladimiro Miranda defendeu que Darwin
foi um engenheiro
Este debate surgiu da sua “indignação” pelo último ano ter passado sem ter havido referências à importância do conceito geral de Darwin na vida comum dos cidadãos, introduzido através da engenharia. O representante do INESC deu como exemplo os casos da EDP e da Tetra Pak, que usam softwares que recorrem a algoritmos genéticos baseados na ideia de evolução conceptualizada por Darwin. Na sua opinião, a ideia do pai da biologia moderna tem um “poder fantástico”, na medida em que junta mecanismos que geram diversidade e outros de selecção, que permitiram a resolução de problemas ao nível dos sistemas informáticos, que antes não eram solucionáveis.

Pedro Oliveira complementou a posição do Director do INESC e explicou a importância dos algoritmos evolutivos, dizendo que estes são “mecanismos artificiais que simulam a evolução biológica, que por sua vez é um processo de optimização”.

Já Sara Silva destacou o espírito “engenhoso” de Darwin no âmbito da cultura e das humanidades. “A sua teoria é o óleo que lubrifica todas as ciências, desde a engenharia às ciências humanas, como a psicologia evolutiva”, frisou.

Sara Silva foi a «voz» das Humanidades
Sara Silva foi a «voz» das Humanidades
A investigadora da FLUP explicou que nos últimos tempos as ciências biológicas e as humanas têm sido aproximadas. Um exemplo disso é a Escola de Evolução Cultural, que foi inspirada pela árvore da vida de Darwin. Tal como acontece na evolução, a cultura está exposta a forças selectivas e muitas delas podem ser representadas como árvores. “A pujança dos pressupostos darwinistas levou a que no século XXI haja uma grande interdisciplinaridade na comunidade científica. Esta tem de funcionar como o corpo humano, em que todos os órgãos se interligam e se complementam”, acrescentou. 

"Darwin é um obstáculo público"

A posição “anti-Darwin” de António Amorim foi marcada pela irreverência. “A minha presença é um flagelo para tudo o que já foi dito. Choca-me a necessidade dos engenheiros de invocar Darwin. Ele é um obstáculo público, social e científico ao estudo da evolução e do ponto de vista da biologia, dentro de alguns anos perderá o interesse”, referiu o autor “A Espécie das Origens - Genomas, linhagens e recombinações”.

António Amorim refutou a teoria de Darwin
António Amorim refutou a teoria de Darwin
O  também docente da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) deixou bem patente que não considera a “Origem das Espécies” uma teoria e que a solução natural invocada por Darwin trata-se de uma explicação narrativa e justificativa que não contém um conjunto de leis e hipóteses. “Não há descrições no tempo. Ele só subsistiu a palavra ‘Deus’ por ‘selecção natural’. É uma explicação finalista que pode ser literariamente bonita, mas que não satisfaz a curiosidade científica. Não há uma única linha no livro sobre a origem das espécies”, acentuou.

A evolução da ciência passa por projectos transversais

A audiência esteve atenta e interventiva
A audiência esteve atenta e interventiva
Sem posições vencedoras, o balanço final feito pela organização foi positivo. “Todos os debates que estimulam o pensamento e são criativos cumprem a sua função”, declarou ao Ciência Hoje Vladimiro Miranda.

O mesmo defendeu que a troca de ideias e os projectos transversais são critérios importantes para a evolução científica, pelo que as visões divergentes defendidas ao longo do debate por cientistas de especialidades diferentes contribuíram para melhorar a ciência em Portugal.

Comentários

Carlos Alberto Marmelada, em 2009-12-02 às 11:54, disse:
Tendo publicados vastos artigos sobre Darwin, nos quais dois livros, teria imenso prazer em participar em eventos como este.
Visitem o meu perfil em Google. Carlos Alberto Marmelada
Até breve


Donato Caires, em 2009-11-30 às 12:30, disse:
O prof Amorim, mestre e amigo, continua na vanguarda do conhecimento. Encantador com as suas visões e contradições, é sempre um prazer as suas conversas e palestras. Mostra como deve ser encarada a Biologia e como deve ser um Biólogo. Grande pena não poder ter assistido. A repetir.

Luis Bernardino, em 2009-11-28 às 13:40, disse:
Não pude seguir os argumentos do "iluminado" Amorim .Mas pelo arrojo que denota, vamos certamente ter em breve o darwinismo substituído pelo "amorinismo". Quem sabe? (É a evolução...)

lolada, em 2009-11-28 às 12:18, disse:
Lloyd Pye tem uma theoria bem diferente do darwinismo .google it

Diana, em 2009-11-28 às 10:32, disse:
Gostava muito de ter assistido ao debate mas foi impossível com a quantidade de trabalho para faculdade... Espero que voltem a repetir algum debate do género. E agradeço ao Ciência hoje pelo resumo do evento :)

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