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Compreender o todo através
das suas nano-partes

Entrevista a Paulo Ferreira, investigador português na Universidade do Texas, Austin

2009-12-23
Por Marlene Moura

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Paulo Ferreira na redacção do CH
Paulo Ferreira na redacção do CH
Paulo Ferreira licenciou-se na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em Engenharia dos Materiais, mas foi explorando outras áreas durante a sua investigação e vida académica (doutoramento e pós-doutoramento) e já deteve o cargo de conselheiro do Ministério da Economia e Inovação, em Portugal. Foi um dos grandes impulsionadores do programa MIT-Portugal (MIT – Massachusetts Institute of Technology).

Actualmente, na Universidade do Texas (Austin, EUA) investe em projectos ligados a nanomateriais, nanotecnologias e microscopia atómica, entre outros. Publicou, este Outono, a sua primeira obra, em conjunto com dois autores, de áreas e instituições distintas.

Ciência Hoje (CH): Lançou recentemente o livro «Nanomateriais, Nanotecnologias e Design», em colaboração com dois outros investigadores de áreas distintas. Vêm todos de instituições diferentes. O que vos levou a escrever este livro?

Paulo Ferreira (PF):
O trabalho é muito de equipa. Temos backgrounds bastante distintos. Tudo começou entre mim e o Daniel Schodek – que vem da área de Design e Arquitectura, embora tenha formação em Engenharia –, da Universidade de Harvard, por volta de 2004, aquando da minha sabática no MIT. Encontramo-nos uma vez ou outra, devido às nanotecnologias, falamos e surgiram conversas muito interessantes; então passámos a encontrarmo-nos mais e foi aí que surgiu a ideia de escrever qualquer coisa. Mas, pelo facto de sermos de áreas diferentes, notava-se que era difícil comunicar e foi quando pensamos em trazer para o Michael Ashby para o projecto – que tem trabalhado entre o Design, a Indústria e a Ciência.

Investigador é co-autor da obra
Investigador é co-autor da obra
C.H.: Aborda essencialmente o impacto que esta área tem no desenvolvimento da Saúde, Transportes, Ambiente, Energias alternativas e Arquitectura. Qual o papel das Nanotecnologias em cada uma destas vertentes? Podemos começar pela Saúde, por exemplo.

PF.:
Pela primeira vez, as Ciências da Vida e as da Física [Biological Sciences e Physical Sciences] começam a comunicar e a razão é o facto de todo o sistema biológico funcionar à escala nano. Por exemplo, podemos ter um substrato de silício a interagir com um vírus e antes não era possível, por as escalas serem diferentes. Agora, é quase uma área de ‘interface’ onde, no futuro, um determinado processo biológico e físico possam funcionar da mesma forma. A nível anatómico, as leis são as mesmas, mas é sistema muito mais complexo de entender; no entanto, se conseguirmos fazer com que este sistema físico comunique com o biológico poderemos avançar bastante na ciência. No caso particular do cancro, usamos nanopartículas ligadas a um tecido qualquer (com componentes biológicas) e quando detectam uma célula cancerígena conseguem ligar-se a essas e não a outras, o veículo são partículas de prata.

C.H.: Compara, muitas vezes, o corpo humano a um edifício que se desconstrói em blocos e materiais.

P.F.:
Exactamente. Os elementos da tabela periódica são os mesmos, seja aqui, em Saturno ou outra galáxia qualquer; a diferença depende de como se adaptam e é isso que distingue os materiais. Se decompusermos um ser vivo, vamos encontrar carbono, azoto, oxigénio, etc. e um polímero, seja um saco de plástico ou outro, terá as mesmas particularidades. No fundo, tentamos perceber um sistema simples através de cada um dos seus componentes.

Michael F Ashby, Universidade de Cambridge (RU)
É associado do Engineering Design Centre e uma dos três principais investigadores. A sua vida académica pisou, essencialmente, a Universidade de Cambridge, no Reino Unido e de seguida juntou-se ao Instituto de Física de Metais, na Alemanha. Entre 1966 e 1973 foi docente no departamento de Engenharia e Física Aplicada na Universidade de Harvard. Actualmente, pertence à Royal Society, na Royal Academy of Engineering e à U.S. National Academy of Engineering. Desde 1973, tem sido membro da Universidade de Cambridge como professor investigador da Royal Society.
C.H.: Relativamente às Energias Alternativas e ao Ambiente, fazem parte do mesmo pacote “nano”?

P.F.:
Sim, embora o ambiente seja analisado de uma forma mais geral: as várias camadas de ozono e tentar aliviá-las dos elementos nocivos. As Energias Alternativas são um campo mais específico: transporte de energia, armazenamento e produção. Muitos desses processos de energia estão à superfície: a catálise, por exemplo. Uma das propriedades principais dos materiais é que, quando são reduzidos à nanoescala, a sua superfície aumenta substancialmente relativamente ao volume e a essa escala conseguimos tirar partido disso. Por exemplo, as partículas de um pedaço de alumínio explodem à nanoescala – por a quantidade de superfície ser tão grande. Em termos de energia, o facto da superfície aumentar em relação ao seu volume tem impacto ao nível de baterias, combustível e até aplicações a nível solar. Há casos em que os efeitos só têm influência em escalas nanométricas e funciona um pouco como a fotossíntese. A energia solar é transformada em química e as plantas têm 95 por cento de eficiência – o que significa que cada partícula recebida do sol é transformada.

C.H.: É uma obra acessível ao público em geral?

P.F.:
A ideia do livro é, essencialmente, ser uma obra bastante abrangente, para que pudesse chegar aos alunos de Arquitectura, Engenharia ou Design, mas também a empresas. Mas, há capítulos que sim [são acessíveis ao público em geral], e falo da minha contribuição, ligada à Engenharia de Materiais, que é um pouco mais técnica, mas partes completamente acessíveis, dedicadas a nanomateriais na natureza (como teias de aranha, etc.), materiais que toda a gente conhece, há capítulos dedicadas à História, à Arte, como pinturas Maia, restauração de peças artísticas e capítulos dedicados a nano-aplicações que são mais gerais e outras mais técnicas quem pretende aprofundar o assunto. Tem um pouco de Matemática também.

Investigação em nanomateriais, nanotecnologias <br> e microscopia atómica
Investigação em nanomateriais, nanotecnologias
e microscopia atómica
Mais estratégia


C.H.: Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer a nível da Nanotecnologia?

P.F.:
Sim, mas temos, evidentemente, que considerar a questão da escala, ou seja, Portugal tem de ser muito mais cirúrgico para definir a sua estratégia. Temos de saber exactamente o que atacar. O país é pequeno e não é possível entrar em todas as áreas e será melhor numas áreas do que outras. Depende, igualmente, das empresas disponíveis e investindo numa área que seja promissora é que se podem criar ‘novas avenidas’. A primeira coisa a pensar é na estratégia, mas esta é definida e reflecte os governos. Por exemplo, nesta nova administração Obama são disponibilizados 200 mil milhões de dólares em energias alternativas, baterias, células de combustível, energia solar e nós na Universidade vemos que as propostas de investigação são viradas para estas áreas e temos de ajustar a investigação nestas vertentes estratégicas. É também necessário investir em formação e ver onde é que os investigadores se vão concentrar. Na maior parte dos casos, dependemos de terceiros e seria necessário criar, em Portugal, empresas de alta tecnologia que consigam produzir materiais nacionais competitivos a nível mundial, ou seja, feitos aqui, com a nossa liderança.

CH.: Quando abordam o Design das nanotecnologias, têm em conta a estética ou centram-se essencialmente em questões práticas, como eficiência dos materiais, etc.?

P.F.:
Sim, equacionamos sempre o lado da eficiência, mas há sempre a relação custo--eficiência a ter em conta. Hoje em dia é quase impossível fazermos investigação sem pensarmos no ambiente. Por outro lado, há custos muito elevados em determinados casos – um tubo de carbono custa por volta de 500 dólares [350 euros], por exemplo. E, por exemplo, em relação a células de combustível ou baterias, a comparação é sempre estabelecida com a gasolina – é difícil convencer o público ou as empresas a investir numa tecnologia com custos elevados. Em termos de investigação, temos ainda directivas impostas pelo ministério da Energia norte-americano e temos metas a atingir para que estes materiais sejam economicamente possíveis. Quando temos novos materiais com propriedades completamente diferentes podemos suprimir partes. A estética também se aplica. No caso da Arquitectura, existem materiais que mudam de cor consoante a temperatura e alteram a fachada de um edifício, consumindo menos energia. Outros são auto-suficientes em termos de limpeza e estes permitem-nos também definir o design tanto em termos de concepção como visuais.

Lançou o seu primeiro livro no Outono
Lançou o seu primeiro livro no Outono
C.H.: Tentar reaproveitar a energia é sempre uma meta.

P.F.:
Os grandes problemas da humanidade são a energia e a água. A água tem o inconveniente de ser limitada, já a energia pode ser aproveitada em termos de sol. Uma das áreas em que trabalho é na dessalinização, para resolver o problema da água potável.

C.H.: Se pudesse iniciar um projecto seu no país qual seria?

P.F.: Pegava em indústrias mais tradicionais (calçado, têxtil e cortiça) e injectava-lhes alta tecnologia para diferenciar o produto. Outra área seria onde houvesse massa crítica para criar impacto. Se dispersarmos os recursos não se consegue nada é o que acontece com os projectos de investigação – se dividirmos o orçamento disponível por 200 grupos, o impacto de cada projecto será quase nulo e mais vale dar mais apenas a dois ou três e se não produzirem ao fim de um ano, redirecciona-se o financiamento. Em Portugal, na saúde existe massa crítica e recursos ao nível de empresas, como no ramo farmacêutico. Ou um ramo que se mostre inovador.

Daniel L. Schodek, Universidade de Harvard (EUA)
É docente e investigador em Tecnologia Arquitectural, no departamento de Arquitectura da Faculdade de Design da Universidade de Harvard desde 1969. Também foi director do mestrado do Design Studies Program na mesma instituição. Foi recentemente assaltado por um interesse especial em design arquitectural no contexto computacional (computer-aided design e computer-aided manufacturing (CAD/CAM)), envolvendo materiais inteligentes e automação.
C.H.: A sua participação no MIT levou a esta relação com o nosso país.

P.F.:
Estive uns quatro, cinco anos, no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e fiz lá um pós-doutoramento. Hoje em dia, continuo ligado a grupo de lá, como projectos com o departamento de energia. No início desta colaboração com Portugal, fazia parte do plano tecnológico e da equipa. Agora, o que existe entre Portugal e MIT não tem nada a ver com o que foi feito na altura. O programa é excelente, mas poderia ter sido melhor. Há indústrias portuguesas nos projectos e a ideia era desenvolver protótipos e injectar-lhe altas tecnologias e é o que falta em Portugal. Fui uma das pessoas que idealizou o projecto e depois de estar tudo assinado, houve uma alteração e o projecto caiu, assim como a equipa inicial e a colaboração foi feita em termos gerais e noutros moldes. Falta a parte da indústria e da avaliação de financiamento – que chega aos 65 mil dólares. Nos Estados Unidos, há uma filtragem muito rigorosa quando há muito dinheiro em jogo e falo de, por exemplo, no caso de 25 mil dólares, tenho de ir pelo menos duas vezes a Washington. E aqui é difícil de ver onde o investimento é feito.



Comentários

maria martins, em 2009-12-30 às 12:34, disse:
A questão da monotorização dos custos e o percurso do financiamento continua a ser um enorme "handcap" em Portugal, infelizmente em todas as áreas! corrijasse-se essa falha e estaríamos mais além...
mas tem-se feito caminho!


Carlos Caravela, em 2009-12-24 às 17:46, disse:
Mais um ENORME português desconhecido ...

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