Receba as notícias:

O ensino de ciências e a qualidade da educação

Opinião

2006-08-23
Por Por Jorge Werthein*

Muito se fala sobre a necessidade de melhorar a qualidade da educação básica no Brasil e são várias as estratégias defendidas com esta finalidade: aprimorar a formação dos docentes, aumentar o tempo de permanência na escola, melhorar a infra-estrutura e equipar os estabelecimentos de ensino. Todas são válidas e, certamente, se colocadas em prática colaboram para melhorar a educação. Contudo, existe uma alternativa de grande impacto que é pouco lembrada: a incorporação do ensino de ciências ao currículo desde os primeiros anos do ensino fundamental.

*  Assessor especial do director-geral da Organização dos Estados Ibero-americanos – OEI.

werthein@oeibrpt.org

ND - Os subtítulos são da responsabilidade de CH

 No Brasil, o ensino de ciências tem pouca ênfase dentro da educação básica, apesar da forte presença da tecnologia na vida das pessoas e do lugar central que a inovação tecnológica detém enquanto elemento de competitividade entre as empresas e as nações. Evidência da falta de atenção dispensada à formação na área de ciências neste país é o enorme deficit de docentes de física, química, matemática e biológica, calculado em 200 mil segundo o próprio Ministério da Educação.

Enquanto isso, em diversas partes do mundo, inclusive da América Latina, tem-se experimentado o impacto positivo do ensino de ciências sobre a qualidade da educação. Argentina, Uruguai, Chile, Costa Rica, Cuba detêm os melhores indicadores educacionais da região e são exemplos de países que perceberam que o ensino das ciências pode ser muito importante e produtivo.

O impacto do ensino de ciências sobre a qualidade da educação se deve ao fato de que ele envolve um exercício extremamente importante de raciocínio, que desperta na criança seu espírito criativo, seu interesse, melhorando a aprendizagem de todas as disciplinas. Por isso, se a criança se familiariza com as ciências desde cedo, mais chances ela tem de se desenvolver neste campo e em outros.

Bom ensino atrai talentos

Somente esse motivo já justificaria uma maior atenção ao ensino de ciências por parte dos formuladores de políticas públicas na área da educação, mas existem outros. Uma segunda razão é que apenas com bom ensino de ciências para todas as crianças é possível atrair talentos para as carreiras científicas.

A terceira, e última lembrada no âmbito deste artigo, é o fato de que o conhecimento científico e as novas tecnologias são fundamentais para que a população possa se posicionar frente a processos e inovações sobre os quais precisa ter uma opinião a fim de legitimá-los. É o caso do uso de alimentos geneticamente modificados, da clonagem biológica e o uso da energia nuclear. Nesse sentido, o domínio do conhecimento científico faz parte do exercício da cidadania no contexto da democracia.

Costuma-se dizer que, no mundo contemporâneo, o capital mais importante de um país é o conhecimento. O conhecimento, contudo, depende da formação de pessoas capazes de produzi-lo. E num país com as características do Brasil, com um numeroso contingente de crianças e jovens em idade escolar, não é exagerado dizer que este é o bem mais valioso que se tem à disposição, o qual pode se converter em vantagem competitiva se esse potencial for bem aproveitado por meio de uma educação de qualidade.

Falta de capacitação de docentes

Mas justamente por se almejar uma educação de qualidade é preciso atentar para um aspecto fundamental: o ensino para as ciências não consiste apenas em inserir disciplinas no currículo. Vide o que acontece no ensino médio, em que a educação para as ciências, sobretudo na rede pública, é extremamente deficiente devido, entre outras coisas, à falta de capacitação dos docentes.

Assim, a inclusão das ciências desde o ensino fundamental deve ser associada, necessariamente, a uma política de formação de docentes, de modo que eles se sintam seguros e possam propiciar aos alunos aprendizagens significativas.

Não existe nenhum fantasma no ensino de ciência, é apenas preciso transmitir conhecimentos que são até elementares e que gerem interesse das crianças pela experimentação. Os alunos se entusiasmam, querem praticar e começa a existir trabalho em equipa. No Brasil, isso acontece em escolas da rede privada, mas não é possível manter uma situação em que esse tipo de formação e conhecimento se mantenha restrito a um pequeno número de crianças e jovens, sob pena de se continuar a gerar e a reproduzir as desigualdades.

Isabel Castro
2007-06-06
00:25
Partilho inteiramente das ideias que apresenta no seu artigo “O ensino de ciências e a qualidade da educação”, e que me trouxe à lembrança um artigo que li já há algum tempo a propósito de uma visita que o prémio Nobel da física, Richard Feyman, fez ao Brasil há mais de 30 anos. O prémio Nobel descreve que na sua opinião o método de ensino mais eficaz é aquele que forma pessoas curiosas e não eruditos. Segundo conta, o que mais o espantou na visita ao Brasil foi verificar que o ensino da física neste país é muito mais avançado do que o Norte-Americano e que apesar disso o Brasil produz muito menos físicos que o EUA. A verdade é que os Norte Americanos aprendem menos teoria, mas gastam a maioria do tempo a aprender em como usar a informação apresentada, recorrendo essencialmente à experimentação. Entendo pelas suas palavras, que os males que afectam o ensino das ciências no Brasil têm algumas similitudes com o Português, com excepção do défice em professores existente actualmente no Brasil, pois, nós por cá, felizmente ou infelizmente, temos excedentes de massa cinzenta, mais ou menos bem preparada pelas licenciaturas de cinco anos, conferidas por universidades para leccionar ciências. No entanto o ensino das ciências em Portugal não é pautado pelo sucesso. Então o que é que está em falta? 1º Utilizo as suas palavras quando refere que “para se almejar uma educação de qualidade é preciso atentar para um aspecto fundamental: o ensino para as ciências não consiste apenas em inserir disciplinas no currículo”. 2º É necessário também, implementar programas, bem estruturados, equilibrados, adequados à realidade, que sejam exequíveis no tempo disponível e que incluam práticas obrigatórias que estimulem a curiosidade; 3º Será também fundamental que o trabalho dos docentes seja apoiado por manuais rigorosos que contenham o essencial, que fomentem a pesquisa e a autonomia dos alunos; 4º Refiro também a importância de incrementar concursos de ideias, feiras de ciência (com o desenvolvimento de pequenos projectos práticos) e outros encontros, conducentes a valorização do sucesso e da excelência. Termino dizendo, que uma grande parte dos docentes que conheço e com quem partilho a profissão se esforça verdadeiramente para promover o êxito e a qualidade da educação em ciências, necessitando apenas do apoio de uma política de educação estável e duradoura, simples, com menos teoria e mais prática! Isabel Castro (professora de Biologia e Geologia na Escola Secundária de Valongo)
Nildelly Melo
2008-12-16
22:42
concordo com o atigo.
pois ele tranmite a mensagem que tanto questiono.
"como queremos uma educaçao de qualidade se ate a formaçao dos docentes é fragmentada?"
Devemos primeiramente questionar realmente a formaçao das series iniciais ate o ensino medio, e principalmente aquelas que formam o docente pois estas estao a desejar.
Pois a grande massa de universidades que nao sao as publicas estao cada vez mais "formando" e nao "informando" ou melhor nao estao propiciando ao mercado pessoas capacitadas e isso nao é de hoje, pois ha muito nossa formaçao é fragmentada e precisa ser visualizada.
Afinal é o que todos enfatizam, mas nunca ninguem poe em pratica. :"O conhecimento, contudo, depende da formação de pessoas capazes de produzi-lo.
Sara Ribeiro (cursando biologia)
2009-11-18
17:10
Devo infelizmente concordar com esse artigo, pois mostra com clareza a realidade brasileira.
Mário Jelson
2010-04-03
20:31
Âchei muito interessante seu artigo e, muito verdadeiro, sou formado em biologia, atuo dentro de sala de aula com turmas do ensino fundamental (5ª a 8ª séries), já trabalhei também com as séries inicais (1ª a 4ª séries), e realmente as séries iniciais têm pouca "carga horária" me relação às ciências. Precisamos melhorar muito neste aspecto...
Fabiana
2010-07-03
19:59
Gostaria de ler mais artigos sobre o ensino de ciencias no Brasil
Inez Alcantara
2010-08-18
15:23
Concordo com seu posicionamento em relação do ensino de ciências e a necessária formação docente para desenvolver práticas que potencializem a pesquisa como ponto de partida para o ensino demais disciplinas, principalmente no ensino fundamental.
ramon marvil acosta
2011-09-27
23:48
Ola,estou no ultimo periodo da faculdade e estou fazendo o meu tcc.o meu tema aborda a questão do ensino de ciencias no brasil e gostaria de saber como posso ter acesso a artigos que contenham esse assunto.obrigado.
jonice dias
2012-10-25
14:04
ola estou no ultimo semestre da faculdade gostaria de saber como eu faço para ter acesso a artigos que falem sobre: o ensino de ciencias no brasil.
Lourdes Pereira
2014-07-18
13:02
Adorei este artigo vai me ajudar bastante em produzir o meu.

Adicionar comentário:

Comentário
Nome:
Email:
Insira as letras na caixa
Ciência Hoje não publica comentários anónimos. Ciência Hoje só publica comentários identificados com nome e email para eventual posterior contacto. Ciência Hoje recusa publicar comentários insultuosos ou ataques pessoais.

Últimas notícias

Dê azeite ao seu coração

Dois jovens cientistas portugueses
entre oito distinguidos pela EMBO

Neste Natal dê o seu apoio ao Ciência Hoje

Efeitos da cafeína diferem com ou sem açúcar?

António Fernandes da Fonseca deixou a “sua marca”
na passagem pelo Mundo!

É possível estudar «cientificamente» as salsichas?
Universidades de Lisboa, Évora e Trás-os-Montes e Alto Douro fizeram investigação

UBI apresenta amanhã em Bruxelas
sistema de propulsão inovador

Podemos fazer algo para minimizar
ou mesmo evitar a demência?

"Santo graal da cardiologia" vence prémio Fundação Altran para a Inovação

Investigador da UC lidera investigação europeia
sobre as doenças de Parkinson e de Machado-Joseph

Equipa internacional revela o "big bang"
da evolução das aves

Henrique Leitão, vencedor do Prémio Pessoa:
“Um curso de física bem dado é uma verdadeira sinfonia”

Instituto do Território lança Agênca da Baixa Densidade

UC entre as instituições europeias que venceram
o projecto “Vida Saudável e Envelhecimento Activo”

Investigação científica da UE aberta para todos

Cientistas portugueses no vulcão da Ilha do Fogo

UC inaugura projecto pioneiro para resolver
problema da fruticultura nacional

Investigadores da UTAD promovem avanços significativos
na compreensão da doença de Alzheimer

Prémios Pfizer entregues hoje

“Espelho mágico” permite ver como as peças de roupa
de uma loja ficam na pessoa

Sexo de pinguins: como determiná-lo

Punir as crianças quando mentem não funciona

LED desenvolvido pela UA quer revolucionar tecnologia
que recebeu Nobel da Física

Habilidades de feira vs. bancos de escola

Beba vinho tinto! Pela sua saúde!

Aveiro «inventa» folha de fruta não comercializada

UMinho quer criar lentes e iluminação para daltónicos

Vinho e cultura melhores do que sol e areia
e Portugal pode beneficiar com isso

Desenvolvido em Espanha um modelo
para detectar a condução agressiva

Distinguido estudo do metabolismo
de células do cancro do pulmão