Percursos: Margarida Saraiva
e a regulação da resposta imunológica
2010-03-09
Por ECS/ICVS
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| Margarida Saraiva |
Margarida Saraiva tem debruçado o seu estudo sobre a capacidade fascinante que alguns vírus têm de escapar ao sistema imunológico do hospedeiro, um interesse crescente na compreensão da resposta imunológica nas suas duas vertentes: o hospedeiro e o agente patogénico. É por esta razão que o seu interesse se tem focado sobre a interacção hospedeiro/agente patogénico versus regulação da resposta imunológica.
Neste momento, para o seu projecto de investigação usa as infecções por Micobactérias como modelo de estudo, já que o Mycobacterium tuberculosis causa uma doença que atinge toda a Humanidade, que é pouco conhecida e para a qual não existe uma vacina ou tratamento totalmente eficazes. Um dos pontos relevantes do seu trabalho foi a descoberta e caracterização de novas proteínas imunomoduladoras codificadas por alguns Poxvirus. Espera, assim, encontrar pontos-chave passíveis de serem modulados a favor do hospedeiro.
*«Percursos» é uma secção do «Ciência Hoje» e resulta de uma colaboração da Escola de Ciências da Saúde/Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ECS/ICVS) da Universidade do Minho, entidade responsável pelos conteúdos.
Como é que ficou interessada no tema de investigação?
Margarida Saraiva: Durante o meu doutoramento debrucei-me sobre a capacidade fascinante que alguns virus têm de escapar ao sistema imunológico do hospedeiro, o que contribuiu para um interesse crescente na compreensão da resposta imunológica nas suas duas vertentes: o hospedeiro e o agente patogénico, ou por outras palavras, o aparecimento de uma resposta ao agressor e os mecanismos desenvolvidos para a subverter. A partir daí surgiu outro interesse ainda na linha de modulação da resposta imunológica: quais os mecanismos de regulação da resposta imunológica do hospedeiro que permitem a eliminação do agente patogénico, sem no entanto causar qualquer patologia imunológica no hospedeiro. Assim, acabei por escolher como tema de pós-doutoramento os mecanismos moleculares de regulação de uma importante molécula anti-inflamatória: a Interleucina-10. O meu interesse de investigação está portanto focado na interacção hospedeiro/agente patogénico versus regulação da resposta imunológica. Neste momento uso as infecções por Micobactérias como modelo de estudo, o que é bastante estimulante, pois o Mycobacterium tuberculosis causa uma doença que atinge toda a Humanidade, que é pouco conhecida e para a qual não existe uma vacina ou tratamento cem por cento eficazes.
Quais são as principais etapas do seu projecto de investigação?
M.S.: Quando iniciei o meu actual projecto, a ideia foi a de trazer alguns conceitos e problemas da Imunologia Molecular para o campo da investigação em tuberculose. Desta forma, os meus interesses podiam potenciar, e ser potenciados, por questões já em investigação no ICVS. Uma das etapas iniciais envolveu uma clarificação sistematizada da resposta de células do sistema imune inato ao agente etiológico da tuberculose - o Mycobacterium tuberculosis. Os resultados obtidos nesta fase permitiram a colocação de mais questões e hipóteses no âmbito de outros projectos e daí a passagem do trabalho ex vivo, com culturas de células, para o trabalho in vivo, com infecções experimentais usando modelos animais. Seguindo esta aproximação (do simples para o complexo) conseguimos avançar o nosso conhecimento sobre o papel de uma molécula do hospedeiro (o Toll like receptor 2) no reconhecimento do Mycobacterium tuberculosis e seu impacto no desenvolvimento da resposta imunológica.
Quais são as conclusões mais importantes da sua investigação?
M.S.: Durante o Doutoramento, as conclusões mais relevante foram a descoberta e caracterização de novas proteínas imunomoduladoras codificadas por alguns Poxvirus, que funcionam como decay receptors para o Tumour Necrosis Factor (ou TNF) ou para o CD30 (uma molécula co-estimuladora). Seguidamente, no Pós-doutoramento, realizamos a proposta de um mecanismo de regulação molecular do gene da Interleucina-10, comum a várias células do sistema imunológico, que envolve a activação de uma cinase intracelular chamada ERK. Actualmente, ainda é cedo para o aparecimento de conclusões importantes, mas estamos a obter alguns resultados promissores na àrea do reconhecimento do Mycobacterium tuberculosis por células do sistema imunológico inato, implicações para o desenvolvimento de uma resposta imunológica apropriada e também resultados muito interessantes no âmbito da regulação da expressão da Interleucina-10.
Quais são as implicações para a prática clínica?
M.S.: Relativamente às proteínas imuno-moduladoras dos Poxvirus, é possível uma aplicação em situações onde interesse bloquear um excesso de TNF, muito comum em algumas patologias, como por exemplo a artrite reumatóide, ou em patologias mediadas por sinalização excessiva via CD30. Na verdade, o homólogo viral do CD30 está patenteado e faz parte neste momento do programe de investigação de um spin-off canadiano. Relativamente ao estudo da regulação da Interleucina-10, seria extremamente relevante conseguir modular a produção desta molécula de uma forma específica para determinadas células, localizações anatómicas ou tempos particulares durante o desenvolvimento da resposta imunológica. Por exemplo, em doenças autoimunes seria muito relevante conseguir aumentar a produção de Interleucina-10 para abrandar a resposta imunológica causadora da patologia. É neste sentido que os nossos resultados mais recentes, usando o Mycobacterium tuberculosis, são muito excitantes.
Quais são os planos para a investigação futura?
M.S.: O estudo da expressão de vários genes com relevância na resposta imunológica contra o Mycobacterium tuberculosis, entre os quais as Interleucinas-10, 12 e 23. Investigar alguns aspectos, aparentemente paradoxais, do reconhecimento do Mycobacterium tuberculosis no contexto do desenvolvimento de protecção versus patologia.
Quais as razões que estão na base da selecção da Instituição/Local onde quer desenvolver a sua Investigação?
M.S.: As razões que me levaram a escolher o ICVS quando regressei a Portugal prenderam-se com o facto de haver muitos pontos de interesse comuns e complementares entre o meu plano de investigação e o da equipa onde me integrei. Além disso, o ICVS é o único instituto no país com a infra-estrutura necessária ao desenvolvimento de investigação usando infecções experimentais com Mycobacterium tuberculosis como modelo.
Planos para o futuro, de uma forma geral?
M.S.: Manter a investigação a um bom ritmo, tendo como objectivo a compreensão do sistema imunológico nas suas várias vertentes, esperando assim encontrar pontos-chave passíveis de serem modulados, obviamente a favor do hospedeiro.
NOME DA INVESTIGADORA :
Margarida Saraiva
FORMAÇÃO ACADÉMICA:
1993/1997 - Licenciatura em Bioquímica, Universidade do Porto;
1999/2002 - Doutoramento em Virologia, Universidade de Cambridge, Reino Unido
PERCURSO DE INVESTIGAÇÃO:
1997 - Estágio de Licenciatura na Universidade Jacques Monod, em Paris (programa Erasmus);
1997/1998 - Bolseira de Investigação no grupo da Prof. Maria João Saraiva, IBMC, Universidade do Porto;
1999/2002 - Doutoramento em Virologia (Viral Immune Evasion by Poxviruses), no grupo do Dr. António Alcamí, Departamento de Patologia, Universidade de Cambridge, Reino Unido;
2003/2007 - Pós-Doutoramento em Imunologia (Molecular Mechanisms of IL-10 Gene Regulation), no grupo da Drª Anne O’Garra, National Institute for Medical Research, Medical Research Council, Londres, Reino Unido;
2007-… - Investigadora Auxiliar no Domínio de Microbiologia e Infecção, ICVS, Universidade do Minho.
POSIÇÃO ACTUAL:
Investigadora Auxiliar no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde;
Docente a tempo parcial, Escola de Ciências da Saúde
AFILIAÇÕES:
Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde/ Escola de Ciências da Saúde
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