De como as alterações climáticas afectam a biodiversidade
Entrevista com Miguel Araújo
2006-09-12

Miguel Araújo, cientista português que desenvolve o seu trabalho principalmente no Museu Nacional das Ciências Naturais, em Madrid, publicou na semana passada, na Science, um artigo que aborda a questão das alterações climáticas e da biodiversidade. «Nos últimos cem anos o clima da Terra tornou-se mais quente e o regime das precipitações mudou. Podem os biólogos prever os efeitos destas alterações na distribuição das espécies?» Assim começa o trabalho editado por aquela revista. Na entrevista que apresentamos, Miguel Araújo desenvolve as suas ideias a proposta desta questão.
Em que consiste o artigo e quais os principais temas que contempla?
Miguel Araújo - O artigo pretende fazer o ponto da situação no que respeita a ciência das previsões sobre os impactes climáticos na biodiversidade.
Que modelos climáticos são os mais indicados para prever o efeito das alterações climáticas sobre a distribuição das espécies?
M.A. - Esta é uma discussão que ainda tem solução à vista mas, actualmente, o que defendemos é que se deve usar o maior número de modelos possíveis a permitir uma análise aprofundada das incertezas dos modelos. Temos um projecto financiado pela Fundação BBVA que pretende justamente inovar a este respeito.
Que solução ao debate propõe este artigo?
M.A. - O problema dos modelos sobre alterações globais é que fazem previsões sobre eventos que ainda não ocorreram. Por outras palavras, são impossíveis de validar. Uma alternativa é fazer previsões sobre distribuições de espécies no passado usando dados do registo fóssil para validar os modelos. Esta é uma linha de trabalho, inovadora, na qual a minha equipa no Museo Nacional de Ciencias Naturales se encontra a trabalhar.
Quais são, a curto prazo, as principais ameaças sobre a distribuição das espécies?
M.A. - As fontes de ameaça são diferentes para diferentes partes do mundo. Em áreas de alta montanha, a subida das temperaturas na primavera e no verão poderá provocar o degelo dos glaciares, com a consequente perda de habitat para espécies adaptadas a climas alpinos. Na Península Ibérica a maior fonte de ameaça para as espécies é a possível redução das chuvas de Inverno e Primavera. Um artigo que publicamos recente no "Journal of Biogeography" demonstrou que os anfíbios da Península Ibérica poderão estar gravemente ameaçados devido às reduções de precipitação previstas para os próximos 50 anos.
É possível elaborar estratégias para "suavizar" os efeitos da alteração global?
M.A. - Há fundamentalmente duas estratégias. A primeira consiste em tentar minimizar a magnitude das alterações globais usando os mecanismos criados no quadro do protocolo de Quioto. A segunda consiste em incorporar regras no planeamento territorial que incorporem as necessidades das espécies num contexto de alterações climáticas. Se é verdade que já existe alguma consciencialização para a necessidade de reduzir os gases de efeito de estufa para minimizar as alterações climáticas, também é verdade que ainda temos um longo caminho a percorrer para tomar consciência da necessidade de nos começarmos a adaptar a um mundo diferente do ponto de vista climático.
Comentários