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Valor do Bestança pode acabar com «interioridade» de Cinfães

UPTEC desenvolveu plano de acção estratégica para o «rio mais limpo da Europa»

2010-11-15
Por Carla Sofia Flores
Localização do Bestança «salvaguarda-o» da acção humana (Clique para aumentar| Foto: Daniel Oliveira)
Localização do Bestança «salvaguarda-o» da acção humana (Clique para aumentar| Foto: Daniel Oliveira)
O rio Bestança, considerado o “mais limpo da Europa”, é um dos maiores atractivos do município de Cinfães do Douro. Nascido na serra de Montemuro, tem 13,5 quilómetros de curso e é contemplado por águas cristalinas que assim permanecem devido ao isolamento proporcionado pela sua localização geográfica. Localiza-se numa zona pouco habitada, onde a agricultura quase não tem expressão, a pecuária é muito diminuta e não há comércio nem indústria. Além disso, o valor e genuinidade do património revêem-se nos velhos moinhos que ainda resistem ao passar dos tempos e que trazem à memória a história daquela região.

O vale do Bestança, que termina em Porto Antigo, onde o rio desagua no Douro, é um ponto exemplar de conservação da biodiversidade, servindo também de porto de abrigo a espécies como lontras e trutas.

Com o intuito de salvaguardar o património natural do Vale do Bestança e todas as características que o distinguem, a Câmara Municipal de Cinfães do Douro, juntamente com o Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC), vai levar a cabo um plano de acção estratégica que assenta essencialmente em duas ideias-chave associadas aos seus recursos hídricos: “Bestança - o Rio Mais Limpo da Europa” e “Bestança - Carbono Zero”. O objectivo último é tornar o vale do Bestança numa paisagem protegida.

À margem da apresentação pública deste plano, que decorreu em Cinfães do Douro, Serafim Rodrigues, vereador do Ambiente e do Turismo, explicou ao “Ciência Hoje” que preservar o vale é uma ideia muito antiga. “Consideramos ser o rio mais limpo da Europa, o que nos diz muito. Quando, na década de 90, se pensou em fazer uma mini-hídrica, o povo revoltou-se em defesa do seu vale e a autarquia apoiou-o. Neste momento estamos a tentar salvaguardar este espaço valioso a nível ambiental e turístico”, explicou, justificando a importância do projecto.

Daniel Oliveira, Rosário Norton, Serafim Rodrigues e Adriano Bordalo e Sá na apresentação do Plano de Acção  (clique para aumentar)
Daniel Oliveira, Rosário Norton, Serafim Rodrigues e Adriano Bordalo e Sá na apresentação do Plano de Acção (clique para aumentar)
Tendo como entidade agregadora a UPTEC, que teve a seu cargo grande parte do trabalho técnico, o planeamento estratégico e de marketing territorial designado por “Bestança – Pura Energia” apresenta cinco eixos de acção, que visam a rede hidrográfica, as estruturas hidráulicas, as energias renováveis, o turismo e o lazer; e a promoção e divulgação da região.

Bestança: Âncora de desenvolvimento

Este trabalho foi apresentado por Daniel Oliveira, da BLB Engenharia, a empresa incubada na UPTEC que coordenou a maior parte da componente técnica do projecto. De acordo com o engenheiro, “o Bestança é um ponto fulcral e uma âncora de desenvolvimento local e regional”.

O projecto partiu do princípio de que este rio era o mais limpo da Europa.No entanto, quando começaram os trabalhos de investigação para assegurar esta premissa, a BLB Engenharia deparou-se com a lacuna e dispersão de dados sobre a população, as actividades económicas, as características territoriais e ambientais que havia acerca do vale do rio, pelo que a perspectiva inicial teve de ser reformulada. Deu-se assim abertura ao levantamento de informação geográfica sobre a fauna e flora e do perfil demográfico.

“Não existia noção dos limites da bacia hidrográfica do rio nem da ocupação do solo. Os últimos dados eram de 1990 e, em 20 anos, as condições variam”, referiu Daniel Oliveira, ao explicar a necessidade dos novos estudos que foram realizados.

Para criar o plano estratégico “Bestança- Pura Energia”, os investigadores foram para o terreno recolher informações. Foram levantados aspectos importantes de interesse, como fontanários e moinhos; desenvolveram cartografia; analisaram a ocupação do solo, a população e a sua variação ao longo da bacia; entre outros aspectos.

Da monitorização da água à divulgação do rio

Auditório estava repleto de técnicos ligados ao projecto e munícipes que revelaram elevado interesse (clique para aumentar)
Auditório estava repleto de técnicos ligados ao projecto e munícipes que revelaram elevado interesse (clique para aumentar)
Após a criação de um modelo digital para o terreno, fizeram uma nova análise da situação e estabeleceram os cinco eixos estratégicos interligados que deverão entrar em acção logo após a aprovação da sua candidatura (até ao final de 2010) a fundos europeus que atingem o valor máximo de 500 mil euros.

O primeiro eixo apresentado assenta na monitorização da qualidade ecológica da bacia do Bestança, o que, de acordo com Daniel Oliveira, vai obrigar à criação de bases de dados que vão resultar em informação sobre fauna piscícola, por exemplo. “Só com esta informação se pode promover de uma forma correcta. Aí é que se vai ver se o Bestança é realmente o rio mais limpo da Europa”, acentuou.

Relativamente às estruturas hidráulicas, sobressaíram os moinhos, mais de meia centena. No entanto, nem todos estão em bom estado, pelo que será necessário verificar a viabilidade da sua recuperação. Há várias possibilidades para este processo, sendo que alguns podem ser reconstruídos como engenhos tradicionais ou para produzirem energia eléctrica para as hipotéticas estruturas envolventes, como núcleos de interpretação ambiental. Além disso, alguns poderão ser reestruturados como postos de observação da avifauna.

No que concerne ao eixo das energias renováveis, Daniel Oliveira referiu que “há pressão para a implementação de mini-hídricas. Contudo, a intenção é promover a bacia como algo o mais natural possível”, pelo que a instalação de pico-hídricas, sistemas hidroeléctricos com uma potência eléctrica máxima de cinco quilowatts, seria a alternativa mais viável. Ricardo Guimarães, engenheiro da BLB Engenharia, explicou que desta hipótese resultaria o “aproveitamento da água em função das populações envolventes, através das interligações com as redes de distribuição, com um impacto ambiental nulo”.

Apresentação do Plano decorreu na Casa da Cultura de Cinfães (clique para aumentar)
Apresentação do Plano decorreu na Casa da Cultura de Cinfães (clique para aumentar)
Interligados com a beleza paisagística do local estão o turismo e as actividades de lazer que o Bestança proporciona. Este facto pode também ser aproveitado através da rede local de turismo rural que já possibilita a contemplação e o contacto directo com a natureza, a prática de desportos activos, entre outras actividades, mas que pode ainda ser mais desenvolvida.

Por último, o quinto eixo de acção, que consiste na promoção e divulgação deste espaço, está baseado na construção do portal online “Bestança – Pura Energia”. Aí se concentra um vasto conjunto de ferramentas que possibilita a interacção com os seus utilizadores por meio de fotos, vídeos, entre outros elementos, que mostram o que existe no vale do Bestança. “Tudo isto só faz sentido se a informação estiver concentrada num único local”, referiu Daniel Oliveira, salientando ainda que este portal criado pela WAD Software “é muito mais do que um site”. Para além de permitir fazer a gestão e o cadastro da indústria e do comércio a custo zero, possibilita a criação de percursos pedestres temáticos personalizados e também que cada visitante adicione informação no site.

Bestança como paisagem protegida

A execução destes planos de acção caminha para um objectivo último, a executar a médio prazo: tornar o vale do Bestança numa paisagem protegida.

Daniel Oliveira, explicou ao “Ciência Hoje” a importância deste “título”. “Quisemos que isto não fosse apenas um plano ou projectos, mas que se criasse a figura de paisagem protegida, porque isso obriga à criação de regulamentação e de ordenamento do território. A partir desse momento, todos os investimentos, construções ou alterações da paisagem terão de ser avaliados, tendo em conta o impacto ambiental e a garantia de que a ‘integridade’ do Bestança não é afectada”, enfatizou.

O consórcio que levou a cabo este plano de acção “ambicioso” e que também almeja “lutar contra a interioridade” de Cinfães foi composto pela componente científica da Faculdade de Engenharia da UP e pela componente tecnológica da UPTEC, através da BLB Engenharia, que reúne técnicos de engenharia das energias e geologia; da WAD Software, que criou o portal e o logótipo “Bestança – Pura Energia”; e da Gisgeo, uma empresa de sistemas de informação geográfica que prestou apoio no que diz respeito a georreferenciação, sistemas de redes e analise espacial.

Água do rio Bestança é completamente límpida (clique para aumentar | Foto: Daniel Oliveira)
Água do rio Bestança é completamente límpida (clique para aumentar | Foto: Daniel Oliveira)
Além disso, a AGITO, uma empresa local de formação e serviços que fez as candidaturas dos projectos a fundos europeus, gerenciou a coordenação entre as várias entidades envolvidas e vai trabalhar nos planos de acção.

"A água é um património que deve ser protegido"

A apresentação deste plano contou a presença de Rosário Norton, da Administração da Região Hidrográfica do Norte (ARH Norte), cuja missão é consagrar a água como um elemento incentivador da sustentabilidade a nível local e regional e proteger os seus componentes ambientais. Tendo em conta as suas responsabilidades, esta entidade governamental vai intervir na execução dos planos de acção, que, em quota-parte, ajudarão na persecução no objectivo estabelecido por Bruxelas de assegurar a qualidade ecológica da água até 2015.

Adriano Bordalo e Sá, do Laboratório de Hidrobiologia do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, também interveio, explicando que a “água é um património que deve ser protegido e defendido e não um produto comercial como outro qualquer”. De acordo com este especialista, os estudos desenvolvidos no vale do Bestança e o material que daí resultou demonstram o “grande potencial” desta zona, que pode ser “perfeitamente” utilizado. “Há pessoas que querem aprender e o turismo da natureza pode ser uma fonte de rendimento para a região”, destacou.

Caso de sucesso em Ponte de Lima


Paisagem do Bestança tem potencial para se tornar protegida (Clique para aumentar | Foto: Daniel Oliveira)
Paisagem do Bestança tem potencial para se tornar protegida (Clique para aumentar | Foto: Daniel Oliveira)
No término da apresentação do plano de acção estratégica para a bacia hidrográfica do rio Bestança, ficou o testemunho de Gonçalo Libório, da autarquia de Ponte de Lima, que falou do caso de sucesso da paisagem protegida das lagoas de Bertiandos e de São Pedro de Arcos.

Partindo do princípio de que “a biodiversidade é um motor do desenvolvimento local”, esta zona de paisagem protegida obteve no ano passado mais de cem mil visitantes, depois de um processo que “não foi fácil”, na medida em que iniciou em 1970,mas só deu frutos no ano de 2000, quando estas lagoas se tornaram paisagem protegida.

Para além de explicar as raízes deste caso de sucesso, Gonçalo Libório falou sobre a sua expansão e manutenção, proporcionadas por projectos como a “Quinta Pedagógica de Pentieiros”, neste caso. Na sua opinião, os projectos de conservação e valorização do património natural são uma “necessidade para garantir o bem-estar e a sobrevivência do Homem”, pelo que o investimento nesta área é importante.

Mónica Ribeiro
2014-05-21
12:02
Fantástico. Pena não ter acessos e sinalização!

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