Receba as notícias:

As bactérias têm uma“estratégia militar bem ‘pensada’!”

Investigadores identificam padrões actuais na capacidade de infecção

2012-02-27
Por Susana Lage
Francisco Dionísio
Francisco Dionísio
Dois grupos de investigação, do Instituto Gulbenkian de Ciência e Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e do Instituto Pasteur, França, acabam de desvendar por que razão bastam dez células de Mycobacterium tuberculosis para causar tuberculose, enquanto são necessárias dezenas de milhões de células de Vibrio cholera para causar cólera.

O estudo, publicado na última edição da revista PLoS Pathogens, ajudou os investigadores a caracterizar dois grandes grupos de bactérias: as mais infecciosas que são capazes de invadir e/ou destruir células do sistema imune do hospedeiro e as menos infecciosas que se multiplicam mais rapidamente e que comunicam umas com as outras.
“Com este trabalho compreendemos algo muito ‘antigo’: porque é que algumas espécies têm uma dose infecciosa tão alta e outras tão baixa”, afirma Francisco Dionísio ao Ciência Hoje.

O investigador da FCUL, líder da equipa portuguesa de investigação, explica que a literatura científica médica refere muitas vezes que uma espécie bacteriana tem dose infecciosa baixa enquanto outra espécie tem dose infecciosa alta, sem nunca proceder a uma definição científica do que é um valor baixo ou alto.

“Se para a espécie Orientia tsutsugamushi bastam três células bacterianas para causar sintomas e para outras espécies como Gardnerella vaginalis precisamos de milhares de milhões de células para que causem doença, podemos facilmente caracterizar O. tsutsugamushi como sendo de dose infecciosa baixa e G. vaginalis como sendo de dose infecciosa alta”, exemplifica.

O cientista diz que ao recorrer a métodos estatísticos compreendeu que não existem dois grupos, um de valores baixos e um outro de valores altos, mas sim um contínuo de valores. “Então, perguntámos nós, o que explica esta enorme diversidade se o hospedeiro é sempre o mesmo, o Homem?”.

Colónias de bactérias em cultura no laboratório (Crédito: João Gama e Francisco Dionísio)
Colónias de bactérias em cultura no laboratório (Crédito: João Gama e Francisco Dionísio)
As grandes diferenças, compreenderam, são que "as espécies bacterianas de dose infecciosa baixa matam ou inserem-se em células do nosso sistema imunitário e dividem-se devagar; por outro lado, as de dose infecciosa alta são rápidas a multiplicar-se e têm maior probabilidade de conter sistemas para comunicarem entre si e têm sistemas de mobilidade”.

Estas conclusões têm implicações em saúde pública pois ajudam a identificar padrões actuais na capacidade de infecção das bactérias e contribuem para prever a evolução da infectividade dessas bactérias no futuro.

“O que fizemos foi relacionar informação e perceber que as bactérias têm alguma lógica: se não têm um alvo muito específico têm de entrar no ser humano em grande quantidade e ter uma taxa de replicação muito alta para coordenarem bem o seu ataque”. Esta é, de acordo com o investigador, “uma estratégia militar bem ‘pensada’!”.

Apesar de haver dois grupos distintos (um dose alta versus dose baixa) os investigadores ainda detectam uma enorme diversidade em cada um deles. Assim, os próximos passos na investigação serão perceber porque existe essa diversidade e se terá alguma relação com os sistemas de resistência a antibióticos mais encontrados em cada uma das bactérias destes grupos.

Adicionar comentário:

Comentário
Nome:
Email:
Insira as letras na caixa
Ciência Hoje não publica comentários anónimos. Ciência Hoje só publica comentários identificados com nome e email para eventual posterior contacto. Ciência Hoje recusa publicar comentários insultuosos ou ataques pessoais.

Últimas notícias

MORREU MARIANO GAGO

Siemens desenvolve sistema de sensores
que facilita o estacionamento nas cidades

Artista português e cientista da Harvard Medical School
criam escultura inspirada na biologia celular

Quais as principais características
nutricionais e funcionais da bolota?

UBI acelera processo na luta contra o cancro

Coimbra estuda dieta das aves das Galápagos

Olfacto humano ajuda a desvendar crimes violentos

Aluno da FCUL cria barómetro de eficiência energética

UA desenvolve tecnologia para armazenar
e dar mobilidade à eletricidade

Industrialização e “conjuntos sociotecnológicos”
– o caso dos laticínios açorianos

No more bleeding for “iron overload” patients?

Coimbra dá importante contributo
para aplicação da terapia génica

Estudo inédito do sofrimento na deficiência visual
vale nota 20 a aluna quase cega

Prémio Terre de Femmes para bióloga da UA

Encontrado o gene responsável
pela reacção das plantas ao toque

Dores nas costas e hérnias discais

Investigação sobre Cancro, AVC e descontaminação da água
por medicamentos distingue jovens investigadoras

UTAD investiga valor nutricional do leite de golfinhos

Terapia amiga do ambiente descontamina
águas das pisciculturas

Portas abertas para novos tratamentos
para a artrite reumatóide

Gosta de merujes? Vão aparecer na sua mesa!

Estudantes de medicina apostam
na formação científica e humana

Investigadora da Universidade de Coimbra premiada
pela Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas

UC estuda o impacto do novo metro igeiro de Macau

Hepatite C: nova realidade, novos horizontes

Saúde do cérebro e do coração começa na boca

Descoberto o responsável pelo surgimento
de problemas de memória

UA combate contrafacção com códigos DNA para marcas

Investigadores belgas e franceses medem
a temperatura do coração das estrelas

Estudante da UA imprime circuitos electrónicos em papel