Clubes estão em endividamento exponencial e a perder raízes
Investigador da UMinho defende tecto salarial dos futebolistas

Paulo Reis Mourão verificou que os clubes profissionais, em geral, têm desde os anos 80 apostado na renovação e expansão da oferta. As despesas subiram a nível de pessoal, investimento, tributação e, sobretudo, juros. “Antes, o clube reflectia a riqueza da região, cujos excedentes sustentavam patrocínios e plantéis caros e competitivos, hoje é diferente”, disse o autor.
Como alternativa, o docente realça que é preciso combater a gestão reversa da contratação/formação dos atletas e, também, o descontrolo da massa salarial e da dispersão dos rendimentos, “que junta um punhado de jogadores com rendimentos inumanos a uma multidão de amadores ou pseudoprofissionais empobrecidos e desprotegidos”.
Para Paulo Reis Mourão, o futebol europeu “precisa de reconhecer o sucesso de algumas modalidades noutros espaços”, como o basquetebol norte-americano (NBA). E concretizou: “O tabelamento universal dos salários não reduziria o estímulo pela qualidade dos melhores jogadores e asseguraria a sustentabilidade da ‘indústria’. Além disso, se um ‘banco’ de recrutas funcionasse teríamos os melhores juniores nas primeiras épocas nos clubes modestos, evitando a eternização do fosso, pontual e de financiamento, entre os ‘três grandes’ e os outros”.
Organização de ligas

A propósito, o investigador elucida que praticamente todos somos, ao menos uma vez na vida, sócios de uma colectividade, na maioria dos casos ligada à prática desportiva amadora: “A maioria dos amigos identifica-nos com simpatizando de um clube de topo, mas desconhece a que associações amadoras efectivamente pertencemos”.
Tal como a economia, a primeira divisão do futebol português concentra-se no litoral e não tem representante do interior há 12 anos, desde o Campomaiorense. Paulo Reis Mourão realça que, após o salazarismo, o grosso dos clubes da I Liga vem “do eixo da auto-estrada A1”, sobretudo acima do Mondego. Braga é o distrito com mais emblemas em 2012/13: SC Braga, Vitória de Guimarães, Gil Vicente e Moreirense, curiosamente todos no eixo da A11. Esta concentração geográfica não é coincidência. “A nível europeu confirmámos três aspectos para um clube ser competitivo: estar numa área industrial e de bom rendimento ‘per capita’, ter boas infra-estruturas e desenvolver talentos”, vincou ainda. As 16 equipas da I Liga são de distritos que valem cerca de 70 por cento da população e de localidades que em geral têm poder de compra acima da média, o que indicia a força da economia local para gerar excedentes (patrocínios).
Segundo os estudiosos, muitos clubes de uma região em ligas de topo tornam os vizinhos competitivos, mas também limitam o acesso a patrocínios, como terá sucedido com o peso de Benfica e Sporting na capital. No pós-25 de Abril, as empresas a sul do Tejo estagnaram e emergiram as têxteis do Ave. Históricos da Grande Lisboa (Oriental, CUF, Barreirense, Montijo) deram lugar a conjuntos nortenhos (Penafiel, Rio Ave, Espinho) e até das ilhas (Nacional, Marítimo). Mas o têxtil decaiu, arrastando Aves, Tirsense, Famalicão. A crise atacaria o próprio Porto (Salgueiros, Boavista). Na II Liga repete-se o domínio litoral e acima do Mondego. Dos 22 clubes em 2012/13, as excepções são Belenenses, Atlético, Benfica B, Sporting B (todos de Lisboa), Santa Clara, União, Marítimo B (ilhas), Sporting da Covilhã e Tondela (ambos do interior).
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2012-08-13
12:16