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Clubes estão em endividamento exponencial e a perder raízes

Investigador da UMinho defende tecto salarial dos futebolistas

2012-08-08
Economista defende tabelamento universal dos salários
Economista defende tabelamento universal dos salários
Há cada vez mais clubes de futebol numa situação insustentável de endividamento exponencial, conclui um estudo de Paulo Reis Mourão, professor da Universidade do Minho, que saiu na prestigiada revista «Journal of Sports Sciences». No artigo, o economista defende como soluções o tabelamento universal dos salários, a criação de campeonatos por iguais (SAD's e clubes globalizados só em ligas continentais) e um banco de recrutas que coloque os melhores juniores nos clubes modestos.

Paulo Reis Mourão verificou que os clubes profissionais, em geral, têm desde os anos 80 apostado na renovação e expansão da oferta. As despesas subiram a nível de pessoal, investimento, tributação e, sobretudo, juros. “Antes, o clube reflectia a riqueza da região, cujos excedentes sustentavam patrocínios e plantéis caros e competitivos, hoje é diferente”, disse o autor. 
“Antes, o dono do clube era o sócio; hoje é o accionista ou obrigacionista. Antes, as direcções eram mandatadas para gerir; hoje limitam-se a gerir a imagem face aos sócios e indicadas por investidores. Antes, o clube espelhava a juventude e paixão local; hoje é uma marca global, mais estética que ideológica, mais abstracta que telúrica. Antes, os clubes desapareciam devido ao divórcio dos sócios; hoje as SAD’s desaparecem por má gestão, dispersão descontrolada dos empréstimos e incapacidade de solvência dos encargos assumidos”, enumerou.

Como alternativa, o docente realça que é preciso combater a gestão reversa da contratação/formação dos atletas e, também, o descontrolo da massa salarial e da dispersão dos rendimentos, “que junta um punhado de jogadores com rendimentos inumanos a uma multidão de amadores ou pseudoprofissionais empobrecidos e desprotegidos”.

Para Paulo Reis Mourão, o futebol europeu “precisa de reconhecer o sucesso de algumas modalidades noutros espaços”, como o basquetebol norte-americano (NBA). E concretizou: “O tabelamento universal dos salários não reduziria o estímulo pela qualidade dos melhores jogadores e asseguraria a sustentabilidade da ‘indústria’. Além disso, se um ‘banco’ de recrutas funcionasse teríamos os melhores juniores nas primeiras épocas nos clubes modestos, evitando a eternização do fosso, pontual e de financiamento, entre os ‘três grandes’ e os outros”.

Organização de ligas

Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
O professor da Escola de Economia e Gestão da UMinho apela ainda à organização de ligas entre iguais, isto é, SAD’s poderosas e clubes globalizadores não deviam jogar em provas nacionais, só em (inter)continentais. “Quantos titulares das equipas do Benfica, Porto ou Sporting são portugueses? Talvez menos quantos do SC Braga são minhotos, do Vila Real são de Vila Real ou do Santa Marta são penaguiotas”, sublinhou, acrescentando que “talvez mesmo genuína e local só a paixão do adepto que paga com o seu suor hora e meia de distracção”.

A propósito, o investigador elucida que praticamente todos somos, ao menos uma vez na vida, sócios de uma colectividade, na maioria dos casos ligada à prática desportiva amadora: “A maioria dos amigos identifica-nos com simpatizando de um clube de topo, mas desconhece a que associações amadoras efectivamente pertencemos”.

Tal como a economia, a primeira divisão do futebol português concentra-se no litoral e não tem representante do interior há 12 anos, desde o Campomaiorense. Paulo Reis Mourão realça que, após o salazarismo, o grosso dos clubes da I Liga vem “do eixo da auto-estrada A1”, sobretudo acima do Mondego. Braga é o distrito com mais emblemas em 2012/13: SC Braga, Vitória de Guimarães, Gil Vicente e Moreirense, curiosamente todos no eixo da A11. Esta concentração geográfica não é coincidência. “A nível europeu confirmámos três aspectos para um clube ser competitivo: estar numa área industrial e de bom rendimento ‘per capita’, ter boas infra-estruturas e desenvolver talentos”, vincou ainda. As 16 equipas da I Liga são de distritos que valem cerca de 70 por cento da população e de localidades que em geral têm poder de compra acima da média, o que indicia a força da economia local para gerar excedentes (patrocínios).

Segundo os estudiosos, muitos clubes de uma região em ligas de topo tornam os vizinhos competitivos, mas também limitam o acesso a patrocínios, como terá sucedido com o peso de Benfica e Sporting na capital. No pós-25 de Abril, as empresas a sul do Tejo estagnaram e emergiram as têxteis do Ave. Históricos da Grande Lisboa (Oriental, CUF, Barreirense, Montijo) deram lugar a conjuntos nortenhos (Penafiel, Rio Ave, Espinho) e até das ilhas (Nacional, Marítimo). Mas o têxtil decaiu, arrastando Aves, Tirsense, Famalicão. A crise atacaria o próprio Porto (Salgueiros, Boavista). Na II Liga repete-se o domínio litoral e acima do Mondego. Dos 22 clubes em 2012/13, as excepções são Belenenses, Atlético, Benfica B, Sporting B (todos de Lisboa), Santa Clara, União, Marítimo B (ilhas), Sporting da Covilhã e Tondela (ambos do interior).
Paulo Pintassilgo
2012-08-13
12:16
Mais uma vez o fenómeno social total se manifesta neste artigo... a imagem da sociedade refletida no futebol, clubes endividados - estados endividados, as raízes culturais a secarem quando os interesses económicos mudam os seus cursos.

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