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Diana Marques e os esqueletos
do Museu de História Natural de Washington

A mais conhecida ilustradora científica portuguesa explica
o seu projecto de doutoramento ao «Ciência Hoje»

2012-08-10
Por Luísa Marinho

Diana Marques vai trabalhar num projecto de 'realidade aumentada'
Diana Marques vai trabalhar num projecto de 'realidade aumentada'
Ainda a recuperar do jet lag Portugal – Estados Unidos, Diana Marques, a mais reconhecida ilustradora científica portuguesa a nível internacional, falou com o «Ciência Hoje» para contar o que está a fazer em Washington DC, cidade onde já trabalhou e para onde voltou agora para completar o seu doutoramento em 'media digitais', no Smithsonian – Museu de História Natural.

Com um curriculum vasto, no qual se inclui o convite para a concepção da colecção de selos para 2012 da ONU, Diana Marques inscreveu-se num doutoramento recente promovido pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a Universidade do Texas – Austin.

O doutoramento promove a oportunidade de ir ao Texas fazer um semestre e investigação. Fui lá uma semana para uma 'visita exploratória', conhecer alguns professores, mas o que se estuda lá não ia de encontro aos meus interesses. Como já tinha trabalhado em no Museu de História Natural de Washington, surgiu esta oportunidade de voltar e era mesmo isto que queria fazer”, confessa.

A ilustradora vai trabalhar num projecto de realidade aumentada que “combina o mundo real com o virtual através do interface digital”, explica. No museu “existe uma grande colecção de esqueletos de vários tipo de vertebrados – mamíferos, aves peixes repteis e anfíbios – que se encontram dividios por várias salas”.

É com esta colecção 'histórica', que foi transferida no início do século XX do primeiro museu nacional dos EUA para este, que Diana Marques vai trabalhar. “O que vamos fazer é acrescentar uma camada digital a estes esqueletos”.

Com os seus dispositivos móveis – tablets ou smartphones – os visitantes do museu poderão “activar para alguns esqueletos uma experiência de realidade aumentada. Através do ecrã da câmara do seu dispositivo podem ver o esqueleto e, simultaneamente, os conteúdos que serão produzidos”.

«Lémur de cabeça dourada» - técnica digital, edição filatélica da série
«Lémur de cabeça dourada» - técnica digital, edição filatélica da série "Espécies Ameaçadas" da Administração Postal das Nações Unidas
Para um determinado esqueleto “podemos mostrar o sistema muscular ou o seu aspecto exterior, a forma como se alimenta ou o significado de um osso”. Diana Marques não vai fazer a aplicação, mas sim produzir os conteúdos, como ilustrações ou animações que serão vistas “em cima dos esqueletos reais”.

O projecto de doutoramento envolve também uma parte de investigação. “Vou estudar como as pessoas recebem esta ferramenta; estudar as várias formas de contar as história para cada esqueleto, aproveitando a questão das narrativas digitais. Vai ser uma experiência nova. É uma área que está agora a despoletar nos museus e será interessante perceber qual a receptividade destas formas de interacção”.

Interesse pela ilustração científica está a aumentar

Como professora de mestrado na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e formadora em workshops (como no Borboletário - ver caixa), Diana Marques considera que o interesse pela ilustração científica tem aumentado nos últimos anos. Isso resulta “do crescimento do número de profissionais a actuar na área e de uma maior disponibilidade de aulas”.

Desde há 25 anos que “há um trabalho continuado de várias pessoas como o Pedro Salgado, Fernando Correia, Nuno Farinha, eu própria. Há este esforço de divulgar, mostrar, promover cursos. Por isso começa a haver um maior conhecimento sobre o assunto”.

Há também, considera “um maior desenvolvimento da comunicação da ciência em Portugal que resulta de meios de comunicação como o Ciência Hoje, outros jornais ou programas de televisão”. Tem havido igualmente “um crescimento dos gabinetes de comunicação cientifica dentro dos museus e dos institutos de investigação”.

Por entre lagartas e borboletas

Até dia 2 de Setembro quem se dirigir ao Museu de História Natural e da Ciência (Lisboa) pode ver a exposição «Por Entre Lagartas e Borboletas: trabalhos de ilustração científica». Os trabalhos apresentados resultam do segundo workshop dirigido por Diana Marques no Borboletário do Jardim Botânico. A ilustradora confessa que gosta de dar aulas. “As pessoas têm cada vez mais interesse na ilustração científica. São só quatro dias de workshop, por isso não se pode esperar ver ilustrações de qualidade profissional. Mas é interessante para os visitantes perceberem o que se pode fazer em quatro dias e que a ilustração científica está ao alcance de qualquer pessoa”.

Tudo isso conjugado “tem promovido a ilustração científica em Portugal”. No entanto, considera, “ainda há muita coisa a fazer porque o financiamento para fazer ciência em Portugal é bastante curto. Cada vez mais tem de haver a consciencialização de que a ilustração cientifica não é um luxo mas mais uma ferramenta para tornar mais eficaz a comunicação. E quando falo de ilustração científica, não estou só a falar de imagens muito bonitas; qualquer diagrama ou esquema que tenha uma mensagem científica pode em, última análise, ser considerada uma ilustração científica”.

O futuro

Neste momento, Diana Marques tem “toda a energia” colocada em trabalhar nos Estados Unidos e em Portugal. “Gosto muito de dar aulas de desenho científico no mestrado de Desenho da Faculdade de Belas Artes, em Lisboa e tenho muita vontade de continuar a participar em projectos em Portugal”.

Depois deste “grande projecto de doutoramento”, a ilustradora gostava de estar mais ligada a museus ou a institutos de investigação.

Gosto de trabalhar como free-lancer, mas cada vez mais acho importante esta ideia de missão, de poder trabalhar com objectivos mais definidos e contribuir para o avanço de uma determinada instituição em termos de comunicação com o público. Fazer chegar a ciência às pessoas é para mim o mais compensador. Por isso, será esse um dos meus objetivos futuros”, conclui.

Luís Calafate
2012-08-13
13:55
Os profissionais qualificados na área da comunicação de ciência e tecnologia, numa sociedade cada vez mais dependente da ciência, têm um grande papel a desempenhar. Os resultados a obter por Diana Marques, com as ilustrações e animações, junto do público em geral, irão entusiasmar futuros profissionais da comunicação e educação pela comunicação da ciência, em Portugal, nas suas várias vertentes.

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