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Henrique Leitão: “Um curso de física bem dado
é uma verdadeira sinfonia”

O investigador tornou-se membro efectivo
da Academia Internacional de História das Ciências

2013-02-07
Henrique Leitão gosta de
Henrique Leitão gosta de "estudar textos antigos e dá-los a conhecer às pessoas".
Cedo percebeu que queria seguir uma carreira nas ciências exactas. Na juventude escolheu a física, área onde chegou a doutorar-se. Lado a lado com a física estava a paixão pela História da Ciência. Em 2002, dedicou-se integralmente à história.

O trabalho realizado nos últimos dez anos está na base da nomeação como membro efectivo da Academia Internacional de História das Ciências. Há mais de 50 anos que um português não tinha esta distinção. O último membro efectivo daquela academia com nome português foi Joaquim de Carvalho, em 1957.
Henrique Leitão já pertencia à Academia Internacional desde 2007,quando foi nomeado membro correspondente. Também na altura “não havia nenhum português. Nos anos a seguir comecei a sugerir nomes portugueses e hoje em dia já há mais dois ou três investigadores portugueses que são membros correspondentes”, explica o físico.

“Ser eleito efectivo é um salto importante porque os membros efectivos são muito poucos e são os historiadores de ciência mais consagrados. O que é importante nesta nomeação é ver o trabalho ser reconhecido pelos mais importantes na área. Não há cotas, não há dinheiro envolvido, não há prémios”, explica Henrique.

O investigador sublinha que “um académico, cientista, estudioso o que mais aprecia é que as pessoas que ele mais respeita e admira o considerem um pare, um igual. E nesta medida estou muito contente”.

Pedro Nunes, “um pensador original”

Os tempos livres gosta de passá-los com a família e a ler.
Os tempos livres gosta de passá-los com a família e a ler.
O desafio de organizar o trabalho do matemático seiscentista Pedro Nunes (1502-1578), lançado pela Academia das Ciências de Lisboa e Fundação Calouste Gulbenkian em 2002, levou Henrique Leitão definitivamente para o estudo de história da ciência.

“Eu já me interessava muito pela história da ciência, nesse ano de 2002 fiz uma mudança completa porque não se pode fazer física ao mesmo tempo”, conta Henrique Leitão. O investigador explica: “Há muitos anos que se queria em Portugal ter a obra de Pedro Nunes organizada. Ele é, indiscutivelmente, o melhor cientista da história portuguesa”.

Pedro Nunes conseguiu grande projecção internacional “e a importância que ele teve e os seus trabalhos não estavam convenientemente estudados. Os textos em latim não estavam traduzidos, não estavam anotados, não havia edições críticas, não havia edições modernas do trabalho de Pedro Nunes. Há muitos anos que se tentava fazer”.

Nos anos 40 do século passado houve alguns avanços na organização do trabalho de Pedro Nunes, mas o trabalho ficou incompleto. Em 2002 foi retomado por Henrique Leitão, que passados dez anos dá por concluído o projecto Pedro Nunes. Os conhecimentos do matemático seiscentista estão agora compilados em seis volumes intitulados “Obras de Pedro Nunes”.

“Vamos fazer uns volumes finais, com manuscritos, aspectos da vida”, acrescenta o autor.

Henrique Leitão assegura que este trabalho “teve grande impacto fora de Portugal. Houve muitos grupos estrangeiros que descobriram matemática importante do seculo XVI”.

Pedro Nunes foi matemático no século XVI, “muito moderno para o seu tempo”, sublinha Henrique Leitão. O matemático depositava total confiança no poder da matemática “numa altura em que não era comum”.

Henrique Leitão sempre quis seguir estudos na área das ciências exactas.
Henrique Leitão sempre quis seguir estudos na área das ciências exactas.
O matemático de séculos passados considerava que “enquanto não se entende matematicamente um problema da natureza é porque não se entendeu bem o problema. Isto é surpreendente de ver no século XVI e foi isto que me fascinou. Era um pensador muito original”, pormenoriza.

A ciência e as humanidades

Aos 48 anos, Henrique diz não se arrepender do rumo da sua carreira profissional. Natural de Lisboa, o investigador descende de uma família de humanistas. “Penso que houve uma pequena rebelião minha ao escolher estudar física. Mas a minha família diz que os genes ganharam” porque acabou por se dedicar ao estudo da história.

Desde muito novo que percebeu que queria “fazer qualquer alguma coisa nas ciências”. Enveredou pela física. “Um curso de física, bem dado, é uma verdadeira sinfonia. Há disciplinas da física de uma beleza intelectual absolutamente surpreendente”, comenta o investigador.

O especialista defende que
O especialista defende que "Portugal tem grupos de investigação ao mais alto nível internacional"
A dedicação à história exigiu que dedicasse muitas horas ao conhecimento de outros saberes como filosofia e línguas antigas. Henrique Leitão é um homem fascinado com o que faz e confessa tirar também muito prazer da formação de alunos.

“Treinar gente mais nova é muito interessante. Formar uma pessoa em história da ciência é muito complicado. Se uma pessoa tem formação de base científica não domina as humanidades, ou seja, os conhecimentos de história, de filosofia. E o contrário também é difícil, ter conhecimento das humanidades, mas não dominar a ciência. Eu tive de estudar línguas antigas, filosofia, e história para poder fazer história da ciência”, afiança Henrique Leitão.

Henrique Leitão é professor auxiliar na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, pertence ao Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia e é membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, órgão consultivo do Governo e presidido pelo Primeiro-Ministro, desde a fundação deste organismo, em 2011.
Odete Paiva
2013-02-08
15:56
Senhor Professor:
É um orgulho ouvir a sinfonia do seu percurso.
Irei ler esta obra e estarei atenta às suas produções.

Admiro-o e estimo-o.
Ambrosio
2013-02-14
09:45
Os nossos media nao dão destaque a estas noticias e os nossos jovens nao sao inspirados por estes exemplos. É assim o nosso Portugal sempre ignorante.
Maria Manuel Marques da Costa
2013-04-10
16:20
Caríssimo Professor
Para além de um bom investigador, um excelente historiador das ciências o professor é simplesmente brilhante como comunicador. Quero agradecer-lhe as magníficas aulas de mestrado que nos deu. Desejo-lhe as melhores felicidades. Maria Manuel Marques da Costa, ex aluna de mestrado.

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