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Doentes à força!

2004-11-01
Por Eduardo Alexandre Silva*

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Em Portugal a publicidade a medicamentos é sazonal. Durante o Outono e Inverno existe um aumento da publicidade da indústria farmacêutica nos meios de comunicação social, nomeadamente publicidade a medicamentos relacionados com gripes, constipações febres, etc. Nos EUA esta periodicidade não existe. É comum passar na TV anúncios relacionados com medicamentos. Contudo a estratégia dos anunciantes difere um pouco da utilizada pelo nosso país. Por cá, em vez de vender o medicamento vendem antes a doença e os seus sintomas.



 A estratégia da indústria farmacêutica é muito simples: enquadrar o público numa série de sintomas, levando a que o “doente” alarmado contacte o médico para pedir auxílio, de seguida o médico receitará um medicamento para “curar” o doente. Desta feita são inúmeros os spots televisivos onde vemos/ouvimos: “Sente fadiga, irritabilidade, tensão muscular, náuseas entre outros sintomas? Então muito provavelmente sofre de... Nesse caso consulte o seu médico.” Outra versão consiste em associar os sintomas com o debitar de números “científicos” concluindo que, por exemplo: “60% da população sofre de... sem o saber.”

De facto a utilização deste estratagema está associado com o aparecimento do medicamento Prozac, sendo que este modus operandi é, segundo alguns, um produto típico da era pós-Prozac.

O Prozac, da Eli Lilly, foi o primeiro medicamento anti-depressivo a ser comercializado (início de 1988). O seu mecanismo de acção consiste em inibir selectivamente a serotonina, um neurotransmissor associado a eventos de depressão. Paxil (GlaxoSmithKline-GSK) e Zoloft (Pfizer) são outras formas de anti-depressivos concorrentes do Prozac. Por exemplo, o Paxil foi lançado (1993) um pouco tardiamente quando comparado com os seus concorrentes bioquímicos. Contudo com relativa antecedência, a GSK preparou a sua entrada no mercado. Por altura da luz verde da FDA, organismo que rege e aprova o uso dos medicamentos nos EUA, em 1991, começaram a ser publicitadas novas “desordem” como a ansiedade generalizada (GAD) ou então a fobia social. Em 1993 o Paxil começa a ser vendido ao público como um medicamento anti-ansiedade com propriedades anti-depressivas.

Facilmente se apura, pelos números de vendas destes medicamentos, que esta indústria tem sido muito eficaz em fazer com que desordens relativamente raras se transformem, aos olhos de todos, em alarmantes epidemias de larga escala. Neste ponto não é difícil entender que nos dias de hoje existem inúmeras pessoas que tomam drogas sem o mínimo de necessidade médica, acabando por ficar dependentes desses fármacos e realmente doentes, por terem sido permeáveis a este tipo de publicidade farmacêutica.

A terminar fica o pensamento que de facto a ser verdade todos os números que são lançados “a frio” sobre diferentes tipos de doenças do foro psicológico/psiquiátrico, facilmente se conclui que todos nós sofremos de uma determinada “desordem”. Em suma, quer queiramos quer não, somos todos doentes à força!

easilva@deas.harvard.edu

Eduardo A. Silva
Gulbenkian PhD Student
Phone(work):+1 617 495 1689; Fax (Work):+1 617 495 8534Harvard University
Laboratory for Cell and Tissue Engineering
40 Oxford Street, Rm 415
Cambridge, MA 02138, USA
 



Comentários

cds, em 2009-03-20 às 16:46, disse:
O Eduardo saberá, seguramente, que a publicidade a produtos farmacêuticos se encontra altamente regulada, e que quaisquer medicamentos sujeitos a receita médica não podem ser publicitados directamente ao público; no entanto, podem sê-lo, isso sim, as doenças a cujo tratamento se destinam.

Não crê que esta explicação é um bocadinho melhor que a do Prozac?


raquel, em 2007-10-11 às 15:11, disse:
Olá boa tarde! Necessitava de informações sobre este tema comunicação/publicidade farmacêutica. Ajuda-me?

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