Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
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Citação ou Plágio?

Carta de Berkeley

2006-11-05
Por Maria Elvira Callapez

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Maria Elvira Callapez
Maria Elvira Callapez
“When you steal from one author, it’s plagiarism; if you steal from many, it’s research”. (Quando se rouba de um autor é plágio; quando se rouba de muitos é investigação)

Será mesmo assim? Ora, de acordo com as leis vigentes, toda a gente sabe que roubar é considerado um crime. E quando ouvimos falar de roubo, normalmente e de imediato, associamos esse gesto, a dinheiro, a bens materiais, a coisas palpáveis. Talvez não ocorra à grande maioria das pessoas que alguns também roubam pensamentos, ideias, opiniões, palavras, frases, factos, dados, resultados, números, tabelas e trabalho dos outros, sem dar o devido crédito aos autores. Quando isto acontece, estamos a cometer um roubo chamado plágio. Então, se plagiar é roubar, logo é um crime. E que tipo de crime, para além do roubo, é o plágio?

Marcus Valerius Martialis
Marcus Valerius Martialis

Antes de mais, é visto como uma fraude, uma atitude moral e eticamente condenável por parte de quem o pratica. Pela frequência com que vem ocorrendo, tem sido objecto de vários debates e publicações. Entre outros, títulos como,“Plagiarism: An ethical problem in the writing world”; “Plagiarism is worse than mere theft”; “Plagiarism: A Spreading Infection”; “The scourge of plagiarism”, ilustram, claramente, o sentimento que este assunto tem suscitado nos dias que correm.

Todavia, este não é um assunto de preocupação actual. As origens da palavra plágio remontam ao início do primeiro século, AD, e são atribuídas a Marcus Valerius Martialis, (Martial), conhecido pela sua poesia com carácter satírico, vulgo epigrama. Lê-se na fonte que o plágio, como um epíteto para o roubo da linguagem e das ideias de outro escritor, foi inventado pelo poeta romano Martial. Ao censurar Fidentinus por este recitar as suas palavras como se fossem dele próprio, Martial comparou-o à pior coisa que ele podia considerar – um ladrão de escravos, um plagiario”.

Portanto, a partir desta cena, nasce aquela que viria a ser uma das figuras mais censuradas por infringir os mais elementares códigos éticos e morais - o plagiador. Na sua forma mais simples, o que sabemos hoje é que um plagiador é um kidnapper, um raptor, que comete roubo intelectual, que escreve algo que de facto é pertença de outra pessoa, que, em suma viola a ética profissional.

Mas, segundo Randall, já a encicloplédia de Diderot, do século XVIII, oferece uma definição de plagiador semelhante às que maioritariamente vigoram nos dias de hoje. “Um plagiador é um homem que a todo o custo quer ser um autor e não tendo nem génio nem talento, copia não só frases, mas também páginas e passagens inteiras de outros autores e tem a má fé de não os citar; ou aquele que com pequenas mudanças e adição de pequenas frases apresenta a produção dos outros como algo que fosse imaginado ou inventado por ele próprio; ou ainda aquele que reclama para ele a honra da descoberta feita por outro”.

Por conseguinte, destas definições inferimos que estamos explicitamente perante um plágio intencional. Porém, temos consciência de que os nossos pensamentos, ideias, opiniões, linguagem, escrita, comportamentos, são influenciados por outros e por isso não raras vezes, escrevemos, de forma não intencional, ideias e pensamentos que já outros transmitiram e tornaram público, mas que nos parecem originais. Nesta situação não é fácil perceber e ter consciência se estamos a plagiar, na medida em que expomos, subconscientemente, a informação lida, experenciada, absorvida e enraízada nas nossas mentes. Logo, não será simples julgar tal actuação como ilegítima ou tomá-la como uma transgressão.

O pior dos comportamentos

Pese embora a noção de que muito do trabalho intelectual que se desenvolve resulta e assenta nos conhecimentos de outros, como reage a academia quando confrontada com os seus pares que plagiam? Pois, entre os académicos, o plágio, é tido como o pior dos comportamentos, um delito, uma decepção. É uma decepção para todos os que leêm os textos roubados visto que o autor que plagia ganha crédito através das ideias que não são as suas, enganando assim os leitores, pelo menos de duas formas: por um lado, impede que eles contactem o original e por outro há a possibilidade de apresentar as ideias e as palavras originais tiradas do contexto, defraudando o sentido e o rigor da investigação original, isto é, daquela que foi usurpada.

Por isso, na academia, o plágio e a fabricação de resultados são nitidamente reconhecidos como formas de comportamento desviante da conduta científica. Richard Smith, antigo editor do British Medical Journal é muito violento para com o plagiador e manifesta por ele a sua desconfiança desta forma: “Where plagiarism is found, the author's previous publications must be examined. The evidence shows that an act of misconduct is usually part of a pattern of behaviour rather than an isolated incident”.

Ao longo dos tempos têm sido tornados públicos vários exemplos de escritores famosos e de alguns cientistas que cometem plágio e auto plágio, sendo este outra vertente de plágio que acontece quando alguém usa um trabalho seu que já foi publicado mas não lhe faz qualquer referência. E porque o plágio cresce, John Maddox, ex editor da Nature, pergunta “how can established academics, almost by definition not neuronally deficient, be so artless in their intellectual burglary?.”

Sabendo-se que o plágio constitui um problema, que simboliza um comportamento impróprio, não ético, porque razão ocorre o plágio? Entre outros, factores e condicionalismos como pressão para publicar, falta de tempo, intenção de submeter o trabalho, simultaneamente, a várias publicações, ânsia de ganhar bolsas, prémios e reconhecimento, poderão estar associados “ao aumento da corrupção do empreendimento académico”. Para ganhar fama e nome rapidamente, ou promoção na carreira, alguns preferem escolher a via mais fácil de “cut-n-paste policy” que por sua vez leva inevitavelmente à conduta “plagiarize-n-publish”, do que impedir a humilhação a que ficam sujeitos e às vezes à expulsão dos seus postos.

Enfrentar o fenómeno

E porque o fenómeno plágio existe, só nos resta, então, enfrentá-lo e tentar evitá-lo. Como fazer? De acordo com Balaram, “educar a nova geração pode ser que seja a única vacina disponível para conter a propagação, disseminação do vírus do plágio”. Assim, para não se contagiar os estudantes, é importante que as escolas, as universidades, os professores, os ensinem a combater o plágio. É do conhecimento geral que alguns estudantes, muitas vezes, por exemplo, sob a pressão do cumprimento de prazos para a concretização das suas tarefas, entregam trabalhos totalmente copiados pois tiram partido da proliferação dos recursos electrónicos e da facilidade e rapidez com que acedem à internet, condições favoráveis à prática do plágio.

O que lhes fazer? Simplesmente ensinar-lhes as estratégias e regras dos métodos de investigação bem como as técnicas de pesquisa e citação: porquê, quando e como citar e usar as fontes e referências. E devem ser ensinados da mesma forma e com a mesma dose de paciência com que são instruidos os professores iliteratos em matéria de computadores: muitas horas de instrução numa área em que apresentam deficiências.

Porque o plágio de trabalhos se tem espalhado, muitas universidades americanas têm feito circular, entre os estudantes e instituições, informações detalhadas sobre o que é o plágio e como evitá-lo. Papel fundamental tem sido atribuído às bibliotecas. Quem não se lembra de há bem poucos anos atrás, quando íamos à biblioteca recolher informação, do processo moroso de passar à mão as nossas consultas para o caderno? Agora, como nas bibliotecas aumenta o número de websites, recursos online e bases de dados, com apenas um clique pode aceder-se facilmente e de imediato à informação.

Mas constata-se que é necessário educar os utilizadores sobre o uso ético da informação e os bibliotecários são seguramente agentes propícios para “o ensino de métodos de citação bibliográfica e estratégias de como melhor evitar o plágio, especialmente de fontes da internet”.
É o que se faz por exemplo na biblioteca principal (Doe Library) da Universidade da Califórnia, Berkeley.

No seu website, é possível encontrar respostas às questões “Citing Your Sources - Why cite sources? How do you cite sources? How do you choose a style? Where do I find the most authoritative information about these styles? What is plagiarism? ” Imitemos então, deliberadamente, a politica das bibliotecas da UC Berkeley, mas sem plagiar! À escassez de ideias, mais vale imitar do que plagiar. Enquanto que a imitação é aceitável e por vezes elogiada, o plágio pode ser tido como moralmente odioso, como um pecado.

Nota - Para reflexão ficam as questões: 1 - Deverão as universidades e outras instituições científicas e profissionais integrar, nos seus curricula, programas que alertem os professores, alunos e funcionários, para as normas de integridade do processo de investigação?. 2 – Deverá o plagiador ser castigado? Com que tipo de castigos? Que formas legais existem? 3 – Teremos a responsabilidade moral de denunciar quem plagia? 








Comentários

João Pedro Graça, em 2007-03-05 às 13:22, disse:
Aquilo que define e baliza o conceito de plágio, como está brilhantemente argumentado neste estudo, é a motivação subjacente; ou seja, se aceitarmos como boa a definição sintética de "apropriação da produção alheia em proveito próprio", o facto de não haver intencionalidade exclui liminarmente o abuso. O que não invalida o facto em si, apenas ilibando o seu autor, que agiu por ignorância, desleixo, incúria ou qualquer outro motivo. Na minha opinião, ou existe plágio ou não existe plágio, mas tudo - nomeadamente as respectivas, hipotéticas consequências - depende das motivações de quem o pratica. Uma coisa é, por exemplo, um aluno apresentar um trabalho curricular, que será avaliado, constituído no todo ou em parte por "copy&paste" de materiais alheios, sem menções claras da sua proveniência; outra coisa completamente diferente é um professor, também por exemplo, projectar na sua aula um documentário ou um filme, para fins pedagógicos, sem mencionar a autoria ou a origem daquela ferramenta. Entre uma e outra coisas, vai um mundo de diferenças, que se poderiam escalonar - graduando - segundo critérios de simples bom senso.

Rosa Castela, em 2007-02-07 às 06:09, disse:
Desculpem a minha ignorância, mas gostava que me ajudassem numa questão. É considerado plágio, por ex. pintar um quadro a óleo baseado numa foto tirada do espaço ou de um ser celular? Ou seja, quando as cores e a forma se mantêm mas os materiais e o suporte mudam, está-se a roubar propriedade intelectual?

Maria Elvira Callapez, em 2006-12-03 às 15:49, disse:
Há vários estilos para indicação das referências bibliográficas, dependendo das áreas de estudo e das instituições. Para uma primeira abordagem e no campo das ciências sociais, recomendaria que consultasse "Como se faz uma tese" de Umberto Eco. Aí encontrará informação e discussão em redor das citações e referências bibliográficas. Se trabalha na área das ciências exactas, naturais, uma via possível para adquirir informação sobre este assunto, será contactar as sociedades respectivas, como por exemplo Sociedade Portuguesa de Química, Sociedade Portuguesa de Física, Sociedade Portuguesa de Matemática e similares.

Fátima Borges, em 2006-11-16 às 23:48, disse:
Como professora do ensinos secundário tenho-me debatido com alguns dos problemas citados pela autora deste artigo, qundo peço aos meus alunos determinado tipo de trabalhos de investigação. Tenho tido alguma preocupação em alertá-los para que evitem o plágio, mas tenho também sentido algumas dificuldades em encontrar informação sobre referências bibliográficas para lhes fornecer. Gostaria de saber se há normas nacionais sobre as referências bibliográficas e caso existam onde encontrá-las.

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